quinta-feira, 17 de maio de 2012

O Dia da Espiga e a Festa da Ascensão



As tradições que conservam uma relação com os ritmos da natureza, e que harmonizam o nosso dia-a-dia profano com o carácter sagrado destes mesmos ritmos, estão a perder-se no mundo ocidental. Isto tem como duplo efeito a dessacralização da vida quotidiana, que se resume então aos afazeres vulgares e ao tempo de lazer – sem o terceiro elemento dos “dias especiais”, que nos impeliam a uma subida, ainda que provisória, do nível de consciência – e a perda de sensibilidade para um tempo natural, orgânico e real, por oposição ao tempo artificial imposto pelo relógio e pelo calendário. Como exemplo disto, vemos que mesmo entre aqueles que hoje ainda compram ou colhem o ramo do Dia da Espiga, poucos conhecem já o seu significado.

Actualmente celebrado na Quinta-feira da Ascensão, o Dia da Espiga é a versão nacional dos antigos rituais de celebração da Primavera e consagração da natureza e das colheitas. Apesar do contexto cristianizado, alguns costumes difundidos por toda a Europa ainda revestem este antiquíssimo cunho agrícola, como a bênção de cereais e uvas que por vezes decorre durante a missa, ou a bênção dos “primeiros frutos” hoje efectuada nos três dias que antecedem a Ascensão. Estes gestos recordam o carácter mágico desta época, quando em toda a parte se assistia à manifestação da vida vegetal e animal após a letargia do frio do inverno. O Dia da Espiga reproduz também outra tradição nacional, a das Maias, festejada a 1 de Maio com a colocação de giestas ou outras flores amarelas nas portas e janelas das casas, como forma de receber e celebrar a fertilidade da natureza e esconjurar o mal.

O Dia da Espiga não se limitava, no entanto, à colheita do ramo e ao enfeitar das portas. Esta foi já uma das datas mais festivas do ano, considerada mesmo como o dia mais santo do calendário, e observada em muitas regiões do país com uma paragem de todos os trabalhos equivalente ao domingo, acreditando-se que nele a própria natureza suspendia toda a sua actividade. No Cancioneiro Popular Português pode ler-se: se os passarinhos soubessem / Quando é dia d'Ascensão / Nem subiam ao seu ninho / Nem punham o pé no chão

A “natureza suspensa” está também presente na antiga crença da Hora, aquela que decorre entre o meio-dia solar e a uma hora da tarde, quando "as águas dos ribeiros não correm, o leite não coalha, o pão não leveda e as folhas se cruzam". Este era o momento ideal para a colheita do ramo, composto por espigas, malmequeres brancos e amarelos, papoilas, ramos de oliveira, folhas de videira e alecrim. As espigas simbolizam o pão, que se desejava abundante durante todo o ano; a videira representa o vinho, ao mesmo tempo “sangue de Cristo” e fonte de alegria para o camponês; os malmequeres são o ouro e a prata; as papoilas evocam a cor do sangue, e representam o amor, a vida e a fertilidade; o azeite “que tempera e alumia” é também símbolo da paz; e o alecrim, erva usada para defumar as casas e os doentes, dá saúde e afasta as influências maléficas.

Este ramo deve ser colocado todos os anos por detrás da porta de entrada, ou sobre a chaminé da cozinha, de forma a proteger o lar (também simbolizado pelo fogo doméstico) e a trazer-lhe abundância. Por vezes guardava-se junto do ramo uma fatia ou um pequeno pão, para garantir que este não faltaria.
Ascensão de Cristo, Perugino, 1510

Por ser coincidente com a Quinta-feira da Ascensão, o Dia da Espiga é uma data móvel que segue o calendário litúrgico cristão. A festa cristã é também bastante antiga, seguramente anterior ao século V. Desde então observa-se nesta data uma vigília nocturna, que representa a expectativa da glorificação de Cristo. A Quinta-feira da Ascensão possui em comum com o Dia da Espiga o mote da esperança, que na origem pagã dos rituais da natureza se traduzia na esperança da abundância das colheitas após o adormecimento invernal, e em ambiente cristão é a esperança da salvação e da ressurreição dos mortos. Numa e noutra comemoração assistimos à vitória da Vida sobre a Morte.

terça-feira, 15 de maio de 2012

Viver no presente: a lição de Vénus retrógrado



Já estamos há algum tempo sob a influência do iminente movimento retrógrado de Vénus, mas o trânsito tem início efectivo hoje, dia 15 de maio. Até 27 de junho, todo o potencial venusiano presente na Terra (tanto de forma colectiva como individual) estará focado no passado.

O ponto alto deste trânsito de Vénus será, sem dúvida, o seu raro desfile diante do Sol a 5 de junho, do qual falaremos com mais detalhe noutra ocasião. A passagem de um planeta diante do Sol causa um eclipse solar, mesmo que o planeta – como acontece com Vénus – esteja de tal forma distante da Terra que a visão do astro-rei não chegue a ser afectada. Um eclipse solar marca um novo princípio, e este surge sob os auspícios de Vénus, cuja face voltada para nós estará escurecida. No que respeita a Vénus, a “novidade” é a sua passagem a Estrela da Manhã, ou à fase diurna do planeta, tradicionalmente considerada “masculina” e benéfica. No que respeita a todos nós, a luz do Sol será lançada sobre o que jaz oculto nos domínios da deusa, mostrando-o na mais rigorosa verdade.

Vénus conduz-nos na direcção de todos os relacionamentos com o mundo exterior aos quais atribuímos um valor palpável, físico ou material. Isto significa, para além das relações humanas, a nossa relação com o dinheiro e os valores materiais, a nossa relação com a aparência das coisas (aquilo que consideramos belo) e a nossa relação com tudo o que nos traz prazer. E quando falamos de relação, falamos sempre de nós e do outro – seja ele outra pessoa, um carro, uma casa ou uma conta bancária, a nossa imagem devolvida num espelho, ou o prato que escolhemos num restaurante. O enfrentar deste “outro” ensina-nos quase tudo sobre nós mesmos. Até mesmo um momento tão banal como a leitura do menu do almoço proporciona a oportunidade de nos descobrirmos como seres moderados, frugais ou excessivos.

Esta projecção – o “outro” como nosso espelho – é de natureza venusiana, e o período retrógrado do planeta oferece-nos a possibilidade de rever todos estes tipos de relacionamentos. Mas “viver no passado” não é certamente a forma correcta de encarar um período retrógrado. Os ensinamentos dos maiores mestres da Humanidade podem-se geralmente resumir a uma meia dúzia de conceitos fundamentais, e um deles é o de viver no presente. Só o presente é real, lembrava Buda; do passado resta apenas a memória, e o futuro é mera antecipação do que ainda não foi realizado.

Como lidar, então, com as tendências retrógradas de Vénus, e com as situações muito concretas de retorno ao passado que este trânsito nos pode apresentar?

Tomemos um exemplo. O retorno, sob as mais diversas formas, de um “amor” do passado pode, se não estivermos centrados no presente, levar-nos a reviver nostalgicamente as emoções associadas a essa pessoa (sejam estas boas ou más), causando até o reacender de uma paixão antiga. A mesma situação, mas desta vez vivida por alguém que está equilibrado no momento presente, poderá resumir-se a uma observação emocionalmente desapegada da relação passada. Será assim possível retirar dela todas as suas lições e compreender o papel real que desempenhou na nossa vida, fortalecendo-nos para o futuro.

Se vivemos centrados e equilibrados no momento presente, nenhuma memória do passado ou antevisão do futuro nos pode destabilizar. Voltar o olhar para o passado resume-se a uma calma contemplação das situações apresentadas, sem a deturpação e a confusão causadas pelo envolvimento emocional excessivo. Como é por vezes extremamente difícil observar de forma objectiva uma situação na qual estamos presentemente envolvidos, a reavaliação do passado pode ser muito útil para sistematizar aprendizagens pessoais, agora sem o peso da emoção e do apego.

Por outro lado, a ideia de fazer uma revisão da vida aterroriza muita gente, particularmente aqueles que sabem, no fundo de si, que têm mudanças a fazer. Mas examinar um relacionamento não implica o seu fim. Tudo aquilo que é importante deve ser visto com olhos novos todos os dias, e não apenas num período retrógrado. Se esta é uma boa altura para resolver pequenas questões pendentes, porque não fazê-lo?

Outra situação que beneficiará certamente de uma reavaliação é a nossa relação connosco mesmos, e tudo o que nela está implicado – amor-próprio, estabelecimento de compromissos com os outros, capacidade ou incapacidade de sacrifício pelos outros, assertividade, necessidade de aprovação exterior, etc. Vénus, a deusa do amor, é apenas uma faceta de Ishtar ou Innana, a poderosa Senhora do Céu e da guerra (esta também chamada de dança de Innana). Despertando este arquétipo podemos aprender a ultrapassar uma falta de auto-estima ancorada em traumas do passado, renegociando relacionamentos que nos tolhem e afirmando-nos como indivíduos de pleno direito aqui e agora.

Ishtar, Moon Oracle, Caroline Smith / John Astrop
Porém, se um período retrógrado incita à revisão e reavaliação, não é por natureza favorável à tomada de acções concretas para alterar o estado das coisas. Especialmente nos domínios da deusa, não convém tomar iniciativas revolucionárias: é melhor esperar até ao início de julho para marcar um casamento ou decidir uma separação, lançar um novo plano de negócios, fazer um investimento financeiro, ou até mudar de cor de cabelo, dizem os astrólogos.

Em resumo, o trânsito retrógrado de Vénus e o eclipse solar daqui resultante terão o poder de nos dirigir o olhar para o passado dos nossos relacionamentos, ou para os nossos relacionamentos do passado. Este olhar, para ser verdadeiramente eficaz, deve ser tão objectivo quanto possível, tendo em conta que as relações que mantemos e valorizamos são o nosso espelho. A luz que iluminará este espelho, principalmente em torno do eclipse (entre 1 e 10 de junho), ajudará a ver distintamente os padrões que sustentamos nas nossas vidas, e a avaliar o quanto estes mesmos padrões ainda nos são úteis.

Lembremo-nos de Innana ou Ishtar, rodeada pelos seus leões, e encaremos com a sua determinação esta viagem aos aspectos mais frágeis de todos os nossos relacionamentos. Sairemos daqui seguramente mais fortes.

quinta-feira, 10 de maio de 2012

Júpiter e o Sol ( e Vénus retrógrado)



Daqui a menos de uma semana, a 15 de maio, Vénus começará o seu movimento retrógrado, e nele prosseguirá até 27 de junho. Mais ou menos a meio deste período retrógrado a deusa desfilará diante do Sol (trânsito de Vénus), um acontecimento relativamente raro e do qual falaremos mais tarde. Por agora, convém saber que um período retrógrado, seja de que planeta for, é sempre adequado para fazer reavaliações das áreas da vida e das estratégias relacionadas com o planeta em questão. Estas fases, durante as quais o relógio das influências planetárias abranda, dão-nos uma margem de manobra para rever planos e, se necessário, inverter rumos.
No caso de Vénus, a reflexão será feita sobre tudo aquilo a que damos valor neste momento, desde bens e empreendimentos materiais a relacionamentos. Não é consequentemente uma altura adequada para iniciar compromissos, amorosos ou de trabalho, nem para fazer mudanças estéticas radicais. Com Vénus a “andar para trás”, alguns programas de natureza venusiana (encontros sociais ou românticos, por exemplo) podem falhar, e é também possível enfrentar atrasos na recepção de dinheiro esperado. Por outro lado, este retrocesso do planeta também pode implicar o retorno de elementos do nosso passado – talvez amigos, ou até amantes – criando situações que nos forçam a resolver assuntos incompletos…
Naturalmente, nada disto prejudicará um relacionamento ou um empreendimento sólido. No entanto, o senso comum aconselha a alguma paciência e prudência durante estas semanas, e Gémeos (onde Vénus estará até Agosto) aconselha que se coloque a ênfase numa boa comunicação entre todas as partes. Quanto à própria Vénus, ela aconselha a que não se desperdice esta oportunidade de enfrentar a verdade quando necessário, embora seja sempre aconselhável fazê-lo com a graça e a suavidade da deusa – e deixando as decisões mais dramáticas para depois do dia 27 de junho.
Mas antes de enfrentar estes dias um pouco mais tensos podemos aproveitar as promessas radiosas do próximo fim-de-semana. O Sol que se anuncia em todo o país vai brilhar em conjunção com Júpiter, o planeta generoso, cumprindo o seu encontro anual. Os dois gigantes benéficos estarão em Touro, aumentando a nossa vitalidade, sociabilidade e optimismo. É uma conjunção muito adequada a um fim-de-semana, e provavelmente teremos vontade de o passar com família ou amigos, ao ar livre, e em clima de descontracção.
No entanto, e dependendo do mapa de cada um, alguns de nós poderão sofrer um efeito menos desejável: esta conjunção incita a ignorar a cautela e a abraçar a expansividade jupiteriana, sugerindo empreitadas grandiosas que podem dar origem a fracassos igualmente grandiosos. Tratando-se de um fim-de-semana, talvez o melhor conselho seja aproveitar o tempo para ser simplesmente feliz, deixando as decisões importantes para os dias seguintes.
Por agora, e porque esta influência começa a fazer-se sentir já hoje, dia 10, trata-se de aproveitar a onda benéfica de Júpiter e do Sol, que não poupará os seus raios.

quinta-feira, 3 de maio de 2012

Superlua (Lua Cheia de 5 de maio)

No próximo fim-de-semana será possível observar a maior e mais próxima Lua Cheia deste ano. Segundo os astrónomos, esta é uma superlua – uma Lua (cheia ou nova) que está muito perto do perigeu, o ponto da sua órbita mais próximo da terra. Embora a coincidência entre uma Lua Cheia ou uma Lua Nova e a aproximação ao perigeu possa acontecer 4 ou 5 vezes por ano, a Lua de 5 e 6 de maio ficará plena exactamente neste ponto (com apenas uma hora de desfasamento), o que faz dela uma notável superlua, iluminado o céu nocturno a apenas 357 mil quilómetros da Terra.
Na prática, quando vista da Terra esta Lua Cheia parecerá maior e mais brilhante (particularmente se avistada no momento do seu nascimento), e causará marés mais extremadas durante alguns dias. Por outro lado, o aumento dos supostos efeitos de uma Lua Cheia não será certamente notável. Embora se especule que a actividade sísmica de baixa intensidade (e apenas essa) pode ser afectada por uma superlua, não é conhecida a coincidência de fenómenos naturais de grande escala com estas fases lunares.
Mais interessante, e provavelmente de efeitos bem mais práticos, é a especial disposição dos astros no momento da Lua Cheia. Esta Lua brilha em Escorpião, formando um triângulo dourado com Marte e Plutão, assistido de perto por Júpiter. Marte continua em Virgem e Plutão em Capricórnio, enquanto o Sol ilumina o Touro, completando os três signos do elemento terra. Com a Lua no aquático signo de Escorpião, podemos esperar que estes dias possuam uma energia muito feminina.
Apesar de se tratar de uma Lua muito favorável, até mesmo uma das mais benéficas do ano, não devemos esquecer que a Lua em Escorpião está relacionada com emoções profundas, com o mergulho nas águas do inconsciente. Escorpião não aprecia, nem conhece, a superficialidade. Uma vez que a Lua Cheia, por si própria, já facilita um clima emocional, por vezes mesmo inconstante, é natural que se sucedam as alterações de humor nestes poucos dias que antecedem o pleno lunar, bem como no fim-de-semana. Na pior das hipóteses, virão à tona as emoções que tendemos a recalcar, e seremos forçados a lidar com os nossos temores e fragilidades. Embora seja mais provável que tais ansiedades se revelem no plano das relações íntimas, trazendo à tona questões ligadas com carências afectivas (ciúmes, solidão, sentimentos de abandono ou falta de amor, etc.), também é possível que se manifestem como medos relacionados com carências materiais.
A Lua, Camoin&Jodorowsky
A boa notícia, evidentemente, é que a única forma de nos libertarmos dos nossos medos é enfrentá-los… e de resto, Escorpião também lida com os processos interiores de cura, quer físicos quer psicológicos. Para isso serve a luz particularmente brilhante desta superlua: iluminando paixões, desejos, medos e sentimentos ocultos, ela proporciona-nos uma notável oportunidade de nos libertarmos deles. A ajudá-la está Plutão retrógrado, favorecendo o abandono e a transformação de tudo aquilo que já não serve a nossa alma, e obrigando-nos a deixar partir velhos padrões e apegos. Em Capricórnio, ele permite-nos refazer as próprias fundações da nossa vida. Plutão estará retrógrado durante muitos meses mais, e em Capricórnio até 2023, mas agora trata-se de aproveitar a sua influência conjugada com a desta Lua.
O trígono entre Marte e Plutão, ambos no elemento terra tal como o Sol, proporcionam uma base estável para esta Lua emocional. Se nos recordarmos disto, poderemos encontrar um ponto de apoio seguro para lidar com os momentos mais emotivos. Conjugada com o apelo prático do Sol em Touro, a Lua pode ajudar-nos a encontrar e expressar a nossa intimidade de forma genuína e com auto-confiança, e a deitar fora tudo o que já não nos serve, em todos os aspectos da vida, mas particularmente na nossa psique. É uma boa altura para fazer um auto-exame, da mesma forma que pomos as contas em dia. Aliás, a Lua Cheia em Escorpião favorece a contabilidade e o tratamento dos impostos, para aqueles que ainda os não apresentaram…
E lembremo-nos que a Lua Cheia de maio é festejada, em quase todos os países budistas, no festival de Vesak (ou Vesākha), a celebração do Aniversário de Buda, quando se recorda o nascimento, mas também a iluminação (simbolizada pela Lua) e a morte de Siddhārtha Gautama. Uma das práticas tradicionais deste dia é a da meditação, e a Lua em Escorpião favorece-a particularmente.

terça-feira, 1 de maio de 2012

À luz das fogueiras do 1 de Maio


Beltane
Neste mundo quase dessacralizado, onde os ritmos da natureza e as suas relações com os mistérios do Espírito estão ocultos por espessas camadas de pragmatismo e racionalidade, não deixa de ser curioso que celebremos o dia 1 de maio como um dos mais importantes feriados civis do ano, ainda que sob a forma de Dia do Trabalhador.
Desde tempos imemoriais, o primeiro dia de maio corresponde ao grande Festival da Primavera do hemisfério norte, celebrado como Walpurgisnacht (noite de Walpurgis, a 30 de abril ou 1 de maio) nos países germânicos ou nórdicos, e como May Day nos países anglo-saxónicos, incluindo os Estados Unidos. As festividades, que remontam ao festival romano em honra da deusa Flora, estão também relacionadas com a celebração do Beltane (ou Beltaine, fogo brilhante) celta. Ocorrem exactamente seis meses antes da noite de Halloween ou das Bruxas, e do dia dos mortos ou de Todos-os-Santos, igualmente cultuados como a face oposta do ano.
Beltane, a festa do fogo, celebra a passagem da primavera para o estio, equivalendo às nossas fogueiras de São João, directamente ligadas ao solstício de verão.
Enquanto nos parece evidente festejar o verão em junho, a verdade é que estes antigos sistemas de contagem do tempo definiam o ano através de duas fases principais, a da luz e a da escuridão, de forma a que os solstícios de verão e inverno correspondiam não à entrada das estações, mas sim ao seu auge. O dia 1 de maio representava a entrada da fase luminosa do ano, e o solstício o seu ponto culminante, o “meio do verão” (Midsummer ou Midsommer). O equinócio de outono marcava o momento de transição da luz para as trevas, e o solstício de inverno a noite mais profunda, logo seguida do lento avanço do dia.
As celebrações do 1 de maio enfatizavam a juventude e a fertilidade, opondo-se às festas da morte (a 1 de novembro) como comemorações da sexualidade e da vida. São conhecidas as danças dos jovens casais, enfeitados com coroas de flores, em torno do fálico pau de maio, erigido sobre uma abertura circular escavada no chão, a coroação do rei e da rainha de maio, a suspensão dos votos matrimoniais e a licenciosidade da noite das fogueiras (proibida pela igreja no século XVI), e uma série de outros rituais de fertilidade, como iluminar os cumes dos montes ou saltar por cima do fogo. Tais rituais evocavam a união dos dois princípios sagrados e universais do Masculino e do Feminino, origem de toda a vida.
A Igreja Católica fez substituir estas festividades pagãs pela celebração de Maria, a quem o mês de maio passou a ser dedicado, e que herdou os atributos da rainha de maio ou do verão (chamada de Maia na Europa do norte, Flora em Roma e Kore, a Donzela, na Grécia). A dedicação de Maio à Virgem mantém, ainda que em ambiente cristianizado, a celebração da juventude e da fertilidade, e a evocação do hierosgamos, ou união sagrada, uma vez que Maria é o autêntico modelo da maternidade, tendo concebido do próprio Deus. Assim se colocam coroas de flores nas suas estátuas um pouco por todo o mundo cristão, de forma a celebrar o primeiro dia do mês de Maria.

terça-feira, 24 de abril de 2012

Vénus entre o Amor e a Guerra


A Estrela, Tarot de Oswald Wirth
O brilhante planeta Vénus pode aparecer-nos como Estrela da Manhã (surgindo no céu matinal antes do nascer do Sol) ou como estrela vespertina (junto do Sol quando este se põe). Após uma conjunção inferior (quando está entre a Terra e o Sol, em movimento aparentemente retrógrado), Vénus emerge como estrela matutina, voltando ao movimento directo durante 263 dias; depois, viaja por detrás do Sol durante 50 dias, executa uma conjunção superior (quando está escondida pelo Sol) e surge como estrela da tarde, permanecendo assim por outros 263 dias. Desaparece então durante cerca de uma semana, enquanto passa diante do Sol, cujo brilho a oculta, e repete todo o ciclo.

Vénus é avistada desde o final do ano passado como estrela vespertina, mas a 15 de maio deste ano iniciará o seu movimento retrógrado (em Gémeos) para atravessar a face do Sol a 6 de junho, diante dos “cornos do Touro”, a constelação onde reingressa antes de voltar ao movimento directo. A partir de meados de Maio será novamente avistada como Estrela da Manhã, e assim irá permanecer até Fevereiro de 2013.

Esta alternância entre o seu aspecto nocturno e o seu aspecto diurno confere ao planeta uma simbólica ambígua, presente na mitologia de diversas civilizações antigas. Vénus foi associada tanto a divindades femininas, como Ísis, Ishtar/Astarte, ou até à Virgem Maria (Estrela da manhã, rogai por nós), como a potestades masculinas.

Na Babilónia, a mudança de posição de Vénus nos céus era vista como um sinal de alteração do seu género, causador de transformações também no mundo (em tais momentos os senhores podiam ser derrubados pelos seus servos). Em toda a Mesopotâmia, a Estrela da Manhã era considerada masculina pela sua associação com a luz, o fogo, o poder, a guerra e as armas (recordando o papel de Ishtar como deusa guerreira), o relâmpago, o dia e o anúncio do Sol, que simbolizava a capacidade de guiar os homens e os espíritos. Vénus, planeta que possui fases semelhantes às da Lua e portanto também exibe um crescente – que é visível, em condições ideais, a olho nu – era também o Touro Celestial da epopeia de Gilgamesh, enviado pela própria Isthar, símbolo da virilidade no reino animal. Já a estrela vespertina era feminina, associada à noite e ao amor, à fertilidade e aos seus mistérios, à velhice, à morte e ao mundo do Além.

Também um hino a Nana ou Innana, manifestação de Isthar, explica que a deusa é sempre a mesma, embora assuma diversas formas:

Inanna … Eu sou a mesma, a sábia filha de Sin, a irmã amada de Shamash [o Sol], eu sou ponderosa em Borsippa, sou prostituta sagrada em Uruk, tenho seios pesados em Daduni, tenho uma barba na Babilónia, mas sou sempre Nana[1].

A “Vénus com barba”, diversas vezes referida em textos antigos, era adorada no Chipre na forma de Afrodito. Num comentário à Eneida de Virgílio, o gramático romano Maurus Servius Honoratus (século IV) afirma:

Existe também no Chipre a estátua de uma Vénus barbuda, com corpo e vestuário de mulher, [mas] com um ceptro e genitais de homem, a que chamam de Afrodito, e à qual os homens prestam culto em trajes femininos, e as mulheres em trajes masculinos.

Estátua de Afrodito
O culto a este Afrodito antecede a figura mítica de Hermafrodito, filho de Hermes (Mercúrio) e de Afrodite (Vénus), divindade menor que possuía seios femininos e genitais masculinos. Curiosamente, o planeta Mercúrio também pode aparecer no céu de manhã ou à noite, embora de forma muito mais discreta que Vénus, e a mesma duplicidade de género da deusa era-lhe atribuída em muitos textos antigos.

Esta duplicidade, que na linguagem astrológica transparece na dupla regência de Vénus, governando a atracção, os relacionamentos, a arte, a beleza, a fecundidade e a prosperidade, mas também as vitórias militares e até a virilidade, pode estar na origem da figura de Eros ou Cupido, o Desejo, um jovem sexualmente maduro (só mais tarde representado como criança) e tido como filho da deusa, cujas setas inflamavam a paixão nos homens. Estas setas serão ainda resquícios daquelas que, lançadas pelos soldados nas batalhas, pertenciam ao domínio das divindades guerreiras relacionadas com a Estrela da Manhã. 

Vénus, também equivalente ao deus Quetzalcoatl, a Serpente Emplumada dos Maias, é ainda hoje uma divindade masculina na Índia – Shukra, O Brilhante, conhecido como preceptor dos demónios, aos quais atrai em direcção à Verdade. No Ocidente este planeta é Lúcifer, o Portador da Luz (do latim Lux fero), a Estrela ou Luz da Manhã citada na Bíblia, que simboliza o Rei da Babilónia e o poderio sobre as nações do mundo. Em Isaías 14:12-15, texto em cuja tradução latina (Vulgata) figura o próprio nome de Lúcifer no lugar da “estrela da manhã”, o profeta parece referir-se à posição matutina do planeta antes do Sol, considerada na antiguidade como um sinal de orgulho ou arrogância (hubris) e castigada com a “queda” do astro na fase vespertina, equivalendo à lamentação de Lúcifer como Anjo Caído (a partir de então identificado com Satanás):

Como caíste dos céus, estrela da manhã, filho da aurora? Como foste abatido por terra,ó dominador das nações? Tu que dizias no teu coração: ‘Subirei aos céus, estabelecerei o meu trono acima das estrelas de Deus, sentar-me-ei na montanha da As­sembleia, na extremidade do céu; subirei acima das nuvens e serei semelhante ao Altíssimo’. Infeliz! Foste precipitado no abismo, no mais profundo do mundo dos mortos!

O carácter dúplice do astro, com uma face masculina e outra feminina, uma benévola e uma maléfica, uma diurna e luminosa e outra nocturna e sombria, reflecte-se também na leitura de uma carta astrológica. Aqueles que nasceram sob uma Vénus matutina (localizada no mapa antes do Sol) têm qualidades venusianas que se expressam de forma positiva e assertiva, enquanto uma Vénus vespertina se expressa de forma mais passiva, embora acentuadamente magnética. Num mapa onde Vénus é a Estrela da Manhã, antecedendo a posição do Sol, os desejos podem ser tão fortes que dominam a pessoa, ou permitem o seu domínio por outros, sendo muitas vezes forçoso encarar as consequências das paixões exacerbadas. Tratando-se da estrela vespertina, as qualidades solares saem vencedoras, e a vontade pode ser usada para dominar e orientar os impulsos venusianos. A tendência aqui é para a sua purificação.

Innana na sua forma masculina, 
com dois touros
De resto, os astrólogos reconhecem a dupla energia do planeta, ainda que o tenham por exclusivamente feminino. É sabido que um trânsito de Vénus não traz sempre harmonia, e que existe uma faceta violenta e “marcial” ao seu alcance. De certa forma, Vénus tem semelhanças com Kali, aspecto feminino de Shiva, senhora da sexualidade e da morte, criadora e destruidora de toda a vida. Por vezes é quase inocente, doce, sedutora e encantadora. Porém, rejeitada, desprezada ou dominada pela paixão, como no encontro com Adónis, Vénus é dominadora, agressivamente sensual, e até vingativa e destruidora. Também ela senhora do amor e da morte, equivale da mesma forma a Inanna, guerreira e prostituta, que sabia unir a agressividade masculina à feminilidade capaz de encontrar e despertar o “ponto mais fraco” do oponente. O seu comportamento pode ser violento, selvagem e erótico, ou pesaroso e contrito.

Mas talvez esta dualidade seja aquilo que permite a Vénus governar os relacionamentos, particularmente aqueles nos quais está mais presente a dualidade dos pólos opostos. São estes, afinal, que se separam na guerra e se unem no amor.


[1] Erica REINER, A Sumero-Akkadian Hymn to Nana, Journal of Near Eastern Studies, 33, 1975

sexta-feira, 20 de abril de 2012

O Touro, o Sol e a Lua (Lua Nova de Abril)

Hathor com o disco solar
Na passada sexta-feira, dia 13 de Abril, Marte regressou ao movimento directo no signo de Leão, que ocupa há cinco meses e onde permanecerá ainda até 21 de Junho. Terminou assim o longo período retrógrado deste planeta, iniciado em Janeiro, e cujos efeitos se farão ainda sentir de alguma forma até 19 de Junho, data na qual regressa ao ponto onde estava quando inverteu a marcha (23o de Virgem). Aqueles com signos mutáveis (Gémeos, Virgem, Sagitário ou Peixes) em pontos estratégicos da carta natal terão sentido mais fortemente esta fase na qual os arquétipos de Marte se projectam de forma particularmente insistente na nossa psique, ao mesmo tempo que vemos a sua energia reprimida ou enfraquecida na nossa vida diária. O movimento retrógrado de Marte, sob o domínio do ardente deus da guerra, veio reduzir a nossa energia física e motivação, a capacidade de encetar e desenvolver esforços, de perseguir paixões e desejos, de ser assertivo e impulsivo. O entusiasmo e a energia marcianos regressarão lentamente à nossa vida a partir de agora, embora ainda seja necessário esperar que Saturno retome a sua marcha directa para que os ritmos regressem à normalidade.
Mas para já, podemos esperar com entusiasmo a Lua Nova, ou encontro do Sol e da Lua, que ocorre este mês às 8.18h de sábado, dia 21 de Abril, hora de Lisboa. Terminado o ciclo lunar anterior, definido pela Lua Nova em Carneiro de 22 de Março, principia o ciclo da Lua Nova em Touro. É a altura perfeita para iniciar projectos, tomar decisões, e reproduzir a atitude e o entusiasmo que sentimos de forma geral a 1 de Janeiro, diante de um novo ano. A energia destes dias é criativa, audaz e focada, e pode ser canalizada para uma verdadeira transformação da nossa consciência e da nossa vida. É o momento certo para deitar novas sementes à terra, tanto em sentido figurado como literal.
De forma geral, a Lua Nova permite “recarregar baterias” para o mês que se segue. Sendo uma altura propícia à interiorização (quando a Lua se apresenta escondida e “voltada para dentro”, e não para a acção no mundo), podemos deparar-nos com aspectos ocultos do nosso inconsciente, medos, dores ou pulsões recalcadas que procuram a luz. Estamos mais perto de tomar consciência dos padrões emocionais que nos dominam, e o abismo entre o consciente e o inconsciente esbate-se. Sendo um momento no qual os opostos se equilibram (Sol e Lua, feminino e masculino, razão e emoção, etc.), podemos sentir igualmente uma tendência para o equilíbrio nas nossas vidas, psiques e corpos. As interacções com o mundo podem tornar-se também mais harmoniosas, e é natural que isto seja particularmente sentido entre polaridades opostas, como acontece num casal. Também as barreiras entre o Eu e o Outro se diluem, e podemos ficar mais atentos e sensíveis aos que nos rodeiam.
No entanto, a Lua Nova também pode ser uma altura difícil e dolorosa, quando a nossa sensibilidade está no auge. Se voltarmos ao tema da harmonização dos opostos, talvez possamos entender melhor esta questão. Quando as nossas tendências se extremam, retornar ao equilíbrio exige um impulso forte no sentido contrário, e esse impulso terá como consequência imediata uma sensação de mal-estar e vulnerabilidade. Será melhor aceitar, mais uma vez, aquilo que sentimos, permitindo que seja iluminado pelo Sol da consciência, e não lutar contra a natural correcção dos desequilíbrios.
De qualquer forma, esta Lua Nova ocorre com aspectos muito favoráveis. A conjunção entre o Sol e a Lua, no primeiro grau de Touro, forma um triângulo com Marte em Virgem e Plutão em Capricórnio, unindo três signos do elemento terra. Recebe ainda influências favoráveis de Neptuno em Peixes e de Saturno exaltado em Libra (Balança). É um magnífico encontro da criatividade (Sol) com a emotividade (Lua), a imaginação (Peixes), os prazeres sensíveis e artísticos (Touro) e o amor e a beleza (Libra). Virgem e Capricórnio garantem método e capacidades práticas a todo este imenso potencial criativo.
O Sol em Touro é sensual, materialista e prático, enquanto a Lua em Touro é romântica e instintiva. O seu encontro corresponde a um despertar de todos os sentidos, e ao desejo de desfrutar dos “prazeres simples” da vida: amigos, relacionamentos, boa música, boa comida, a natureza e a beleza no geral. Embora o risco deste signo seja o de exagerar na busca de satisfação e posses materiais, é sempre verdade que a beleza, a alegria e o encantamento com as formas do mundo também têm o poder de nos inspirar e transportar a esferas superiores da consciência. Touro pode ajudar-nos a materializar o espírito, desde que saibamos resistir aos excessos da matéria e dos sentidos. Neste contexto, esta é também uma boa ocasião para reavaliar a nossa relação com os bens materiais e o nosso sentido de posse, mesmo em relação àqueles que nos rodeiam.
Tenhamos portanto um fim-de-semana cheio de beleza e romance, aproveitando a autêntica “festa dos sentidos” que é a época primaveril, e desfrutando da presença dos outros e de tudo que está disponível para nós com prazer e reconhecimento.