sábado, 30 de junho de 2012

Esta carta não está virada ao contrário

A minha avó é que achava que sim. Também não se trata de um rapaz que bebeu demais e agora tenta fazer o quatro, a ver se se equilibra. A minha avó, na verdade, achava que era um jovem de revoltos cabelos azuis e ar apático, a treinar para os Jogos Olímpicos de Moscovo, em 1979, com um fatinho adquirido numa loja popular de Bucareste.

Mas eu vou analisar a carta na posição correcta, com o XII por cima e o título em baixo: Le Pendu – O Dependurado.

Esta carta é muito minha conhecida. Passa a vida a sair-me e passa a vida a sair nas leituras das pessoas sérias deste mundo. Deve ter sido inventada ao mesmo tempo que a burocracia e as repartições de finanças.

Uma coisa que eu gostava de explicar é que a vida, sendo séria, não é assim tão séria. Outra, é que existem cerca de cento e vinte razões para uma pessoa se colocar de cabeça para baixo. Os Jogos Olímpicos de Moscovo, os Jogos Olímpicos de Los Angeles, os de Londres. Isto só no âmbito dos argumentos disparatados e sem lógica. Outra razão pode ser uma posição de ioga. Outra, uma pedrinha entalada na garganta e, virando-se a pessoa ao contrário, a pedrinha solta-se e é cuspida num raio de cinco metros. Outra, embora de repente isto não me faça sentido nenhum, pode ser uma quebra de tensão: pessoa outra vez virada ao contrário e, em dois segundos e meio, valores sistólicos normalizados. Mas, a mais plausível, talvez seja um amuo do género: “Agora não saio desta posição enquanto a Sara Raquel não voltar para mim e o dono do café não me readmitir ao serviço, na próxima segunda-feira”. Diga-se de passagem que com este espírito não se ganham medalhas de oiro nos Jogos Olímpicos, mas a mim não me cabe julgar a vida do rapaz.

E já me está a parecer que esta análise resvala para um certo simplismo.

Independentemente do corte e do colorido do seu fato e do seu tom de cabelo, a figura tem um dos pés atado por uma corda, real ou imaginária. E se há corda que nos ate os pés, se há corda que nos prenda o pé ao ramo de uma árvore, não pode haver alma que se sinta livre, nem coração que não pese no peito - só uma vontade de libertação que nos atravessa o cérebro no sentido dos quatro pontos cardeais.

Em todas as leituras que já realizei, o dependurado aparece aos que acreditam que a vida é difícil e que as coisas só se conseguem com sofrimento. Eu incluída. Também costuma surgir como aviso de complicações e de demoras. Também pode sentenciar que Carlos Manuel não gosta da consulente. Também costuma anunciar que são necessários 350 papéis para conseguir uma transferência de trabalho.

Mas, às vezes, o Dependurado não fala em nada destas coisas. A sua voz é macia e ele é um yogi, a avisar que não é necessário fazer nada. Que está tudo no destino e que, mesmo o tempo de espera, é um tempo preciso e precioso. Se a minha avó fosse viva diria que “o rapaz, afinal, faz tudo com uma perna às costas”. Também diria que era tempo de respirar fundo, de me inscrever numa nova modalidade desportiva, de pintar os cabelos de azul (esta parte é mentira), e de aguardar pelo momento certo, que é quando as coisas erradas não costumam acontecer.

Mas como a gerência é pragmática e eu é que mando neste texto, quero advertir para grandes secas: vá cedinho, tire a primeira senha e leve uma sanduíche de anchovas para comer às dez da manhã.

Não digo, como a minha amiga Patrícia, que o Dependurado é “um não redondo”. Mas aconselho a que, enquanto espera, repita mentalmente que a vida é simples, a vida é simples, a vida é simples e divertida. Talvez não venha a fazer muitos amigos na sala de espera do Instituto Gama Pinto, que é onde eu estou agora. Mas, tirando o labrador que veio guiar a dona, quem é que quer fazer um amigo que só sabe falar de dioptrias e outras matérias oftalmológicas que me esmagam de ignorância?

E com esta frase desagradável e pretensiosa acabo por hoje a minha mensagem de esperança.

quarta-feira, 27 de junho de 2012

Vénus olha em frente - e nós também


A 27 de Junho, e depois de 7 difíceis semanas, Vénus está finalmente voltada para diante (a aproximadamente 7º de Gémeos), alteração que deverá ser sentida em diversas áreas da vida. Vénus é um planeta “pessoal”, cujos trânsitos nos afectam individualmente, pelo que é natural que todos possam sentir, em maior ou menor grau, os efeitos do retorno do regente do amor, beleza e bens materiais ao movimento directo. É possível dizer que a maior parte do desconforto causado pelo recuo de Vénus já passou; à revisão forçada dos aspectos mais fracos ou negativos das áreas iluminadas pelo planeta (os nossos relacionamentos com os outros, com o prazer e com os bens materiais, de forma muito resumida) segue-se agora o momento de encaixe das lições aprendidas, quando nos adaptamos a eventuais mudanças e novas dinâmicas.

Quem fez o trabalho que Vénus exigia está de parabéns, e precisa apenas de mais um pouco de paciência: Vénus faz neste momento um quincúncio (ou inconjunção) com Plutão, aspecto tenso que destaca, por um lado, as transformações (plutónicas por natureza) eventualmente resultantes do período retrógrado de Vénus, e por outro as necessárias crises que tais mudanças podem trazer à nossa vida, enquanto lutamos para nos ajustar a um novo paradigma. Se nos esforçámos por encontrar a nossa verdade e segui-la, não é preciso ter medo – mais cedo ou mais tarde veremos que estas mudanças serão para melhor. Os quincúncios também sugerem aspectos cármicos, sendo importante estar atento ao que trazemos em nós de medos, limitações auto-impostas e reacções instintivas (e não intuitivas). Estes aspectos possibilitam a superação de tais restrições, permitindo-nos crescer e descobrir novas possibilidades e novos padrões para a nossa vida – e, neste caso, para os nossos relacionamentos e a forma como lidamos com as finanças pessoais, acima de tudo.

Muitos de nós podem mesmo descobrir que, embora muito pessoais, estas transformações – seja nos relacionamentos íntimos, seja na forma como lidam com os bens materiais e com o verdadeiro significado de prosperidade, seja na relação com o feminino dentro de si e no mundo, ou em qualquer outra área venusiana – estão ligadas a um esquema mais largo, até mesmo universal. Alguns perceberão que as suas “pequenas” mudanças interiores estão em sintonia com uma mudança maior, com uma verdadeira alteração de orientação dos hábitos e das mentalidades. É que este retorno de Vénus ao movimento directo acontece entre dois fortes momentos “uranianos”, uma a 24 de Junho (quando Urano faz uma quadratura com Plutão) e outro a 29 de Junho (quando o Sol oposto a Plutão faz uma quadratura com Urano). Os dois momentos estão relacionados e prometem alterações de consciência em grande escala, bem como um enfoque na auto-confiança e na capacidade de expressão do Eu (o Sol) e na descoberta de novos paradigmas nos relacionamentos íntimos – que talvez se tornem mais baseados na confiança mútua, na liberdade pessoal e na partilha de coração aberto, e menos no ciúme, na insegurança e no medo. Adivinham-se relações mais amorosas e amadurecidas…

Para compensar dos possíveis momentos tensos que algumas relações podem ter vivido durante o período retrógrado de Vénus, os céus parecem dar-nos agora um “rebuçado”. Na primeira metade de Julho, um sextil - aspecto harmónico - entre Vénus e Mercúrio facilita a comunicação e a partilha de ideias e sentimentos; ampliado pelo (também) sextil entre Vénus e Urano de 5 de Julho, este aspecto passa a trígono, igualmente auspicioso, e promove o crescimento da consciência no campo dos relacionamentos.

No final do período retrógrado, que na realidade só termina no fim de Julho (quando o planeta ultrapassa finalmente o ponto onde estava quando o seu movimento se tornou aparentemente invertido), Vénus fará um outro trígono, desta vez com Saturno, o planeta da maturidade. Para quem lidou honestamente com as lições de Vénus retrógrado, este é o momento de começar a ganhar consciência das recompensas: uma relação mais equilibrada, responsável, amorosa e madura com os outros (ou com um outro em especial), com as finanças pessoais, com a abundância da natureza e do Universo, com o equilíbrio e a beleza nas nossas vidas, etc.

domingo, 24 de junho de 2012

As leituras de Tarot e a Imperatriz

Comecei a fazer leituras de Tarot há cerca de seis anos. Não que sentisse uma grande apetência pelo oráculo. Era mais para ver quantos namorados iria ter e se seriam giros. E também porque tinha um amigo que utilizava o baralho compulsivamente. Lia todos os livros; disponibilizava-se, louco de alegria, a consultar toda a gente; perseguia de modo assustador todo aquele que não mostrasse o menor interesse em saber do seu estado civil daí a uma década; e treinava assiduamente comigo, porque passávamos muito tempo juntos.

As previsões que ele me fazia eram sempre aterrorizadoras. Fosse eu dada ao suicídio e não estaria agora a escrever este texto - há muito teria sido encontrada, morta, enforcada, no ramo de uma figueira, a norte de Jerusalém.

Nenhuma área da minha vida estava destinada a resultar. Foi por isso que eu comecei a reparar nas cartas e a minha curiosidade ultrapassou o meu amor ao mistério. Porque eu adorava a sensação de não perceber nada do assunto. E ainda adoro. Mas o meu futuro era demasiado triste e, tanta desgraça, começou a parecer-me um exagero. Mesmo para uma vida como a minha, que nunca foi exemplo de sucesso.

Havia cartas muito bonitas e com nomes sugestivos. Uma vez saiu-me a Estrela. E eu perguntei ao meu amigo: - O que é que significa a Estrela?

- Significa esperança. - respondeu ele.

Até hoje acontece-me confundir as duas palavras. Perguntei-lhe: - Isso é bom, não é?

- Não, porque saiu aqui na casa das emoções e as emoções não são coisas concretas. O que eu vejo, aqui, é que tu querias estar bem, mas não estás.

- Ah.

E foi assim que eu comecei a ler Tarot. A ver as cartas todas, com atenção. A treinar leituras. A organizar promoções de leituras, que consistiam em perseguir a família, também de modo intimidante (este método tende a ser um clássico), tentando incutir-lhes alguma curiosidade acerca da banalidade dos seus futuros. E dos seus presentes. E das suas emoções enquanto coisas não concretas. 

O meu público era tão pouco exigente que ficava muito satisfeito se eu não lhe previsse uma gripe ou uma dor de dentes ou um calo na planta do pé. E era tão pouco generoso que ficava ainda mais satisfeito por não me pagar um cêntimo. No fundo dos seus estranhos corações a telenovela estava muitos níveis acima do Tarot. Mas isso é o tipo de coisa de que uma pessoa só se arrepende perto da hora da morte e, seja lá como for, eu já lhes perdoei tudo. 

Mesmo quando me tratarem por Madame, e eu fizer consultas em directo, na televisão, não vou renegar as minhas origens de sobrinha de um senhor que não teve calos e de filha única de um casal que nunca gastou dinheiro em kleenexes. Sabiam que lenços de assoar em espanhol se diz pañuelos? Mas isso já é cultura geral e uma história do âmbito do amor.

E foi então que surgiu a Imperatriz na minha vida. Curiosamente, é uma carta que não surge muito nas minhas leituras. Lembro-me da sua imagem, no Tarot de Raider-Waite, com um vestido com padrão de romãs, e de ter tido uma sensação de vida, de alegria e de Verão. Eu por acaso passo a vida a sentir este tipo de coisas, mas foi fascinante senti-las perante uma carta de Tarot. Tornou-se a minha carta preferida, para sempre.

 Para mim, o significado da Imperatriz é o de uma mulher que se conhece a si própria, que é capaz de desenvolver todo o seu potencial, que está muito viva e é muito criativa. 

Mas o que eu gosto mais é de olhar para a carta como um espelho. Um espelho do consulente. 

E a mensagem pode ser: sabes que és mesmo fantástica, ou mesmo fantástico? Ou então: sabes que tens dentro de ti o potencial que eu também tenho? A alegria do Verão? A liberdade de vestir um vestido com padrão de romãs? A possibilidade de seres totalmente livre e um pouco louca? A alma pirosa que te incita a escrever todo um parágrafo com pontos de interrogação, porque és mais preguiçosa que as searas do Alentejo numa tarde de Agosto? A cara de pau que te permite assumir isso sem um rasgo de esforço, para ficar um textozinho mais composto?

O que eu acho que nos diz a Imperatriz é que, se nos elevarmos do chão, as coisas tornam-se mais pequenas. E, quando as coisas chatas se tornam pequenas, o mundo fica muito mais confortável. A Imperatriz gosta de conforto. A Imperatriz é um bocado snob. A Imperatriz é muito sábia. E eu, com este texto, já ganhei o prémio banalidade, o prémio evidência e o prémio Ary dos Santos, pela metáfora das espigas.

E agora ia escrever um bocadinho sobre outros significados atribuídos a esta carta, porque estes foram quase todos inventados por mim. Mas acontece que fiz uma gelatina de morango e está a apetecer-me ir come-la toda. Talvez volte mais tarde, com os outros significados. 

E brevemente também vou escrever um texto sobre o Enforcado, que é uma carta um bocado antipática para toda a gente, menos para a minha amiga Sílvia, que tem um projecto secreto de fabricar peluches em forma de Enforcado. Na verdade, talvez seja só um homem a fazer ioga, muito seguro do seu destino.

Desculpem se fui muito chata. Ah! E aceito perguntas nos comentários. E faço consultas no chat do Facebook. E vou pedir à Maryam para pôr aqui uma ilustração fantástica. Voltem mais tarde para ver a ilustração, que eu agora já só consigo pensar na gelatina. 

Editado: Maryam acaba de publicar a devida ilustração, para que a nossa taróloga preferida possa ir comer a sua gelatina.

quarta-feira, 20 de junho de 2012

Solstício de Verão - o Universo em Fogo



A palavra solstício vem do latim sol + sistere, significando esta última “deter-se”. No momento solsticial, o Sol parece imobilizar-se nos céus antes de continuar o seu movimento. O solstício de Verão acontece quando o Sol alcança o seu zénite (o ponto mais alto no céu alcançado pelo astro na sua trajectória ao redor da Terra) a norte do Equador, o que ocorre este ano no dia 20 de Junho, às 23:09 horas de Portugal continental. Este será o dia mais longo do ano, e a partir daqui os dias acabarão cada vez mais cedo, até ao solstício de Inverno.

O calor e os dias mais longos são o mais evidente indicador do tipo de energia estival, que é yang, energética, animada e dirigida para o exterior. O Verão é sinónimo de calor, cores quentes, uma natureza mais expansiva e aventureira. Ao contrário dos nossos hábitos, não é esta a época mais adequada ao descanso. Pelo contrário, é perfeita para viajar, desenvolver novos empreendimentos, “puxar” pelo corpo (todo o metabolismo está mais acelerado), realizar todo o nosso potencial e viver em pleno. Estamos a funcionar de acordo com a energia da estação se nos entregamos à vida, à amizade, ao romance, à alegria dos dias quentes e à magia das noites tépidas. O solstício de Verão é uma celebração do optimismo, do amor-próprio, da abertura à vida e da libertação dos medos e impedimentos.

Porém, se a Primavera e o Outono são momentos de equilíbrio natural e cósmico, do qual os respectivos equinócios são o símbolo perfeito (com dias e noites de igual duração), o Verão, tal como o Inverno, são épocas extremas. O excesso de calor causa agitação, agressividade, insónias e até febre, enquanto a sua falta conduz à tristeza e à depressão. É portanto necessário manter o equilíbrio, sem deixar de aproveitar a tendência geral de cada estação – a expansividade estival e o recolhimento do Inverno.

A maior parte das soluções são do senso comum. De forma a manter o equilíbrio durante o tempo quente devemos conjugar a tendência para acordar cedo, com a luz nascente, e deitar tarde, usufruindo de mais horas de luz e de vigília, com o repouso durante as horas excessivamente quentes do meio do dia. Ao fogo já reinante na natureza e nos organismos deve juntar-se a água, em banhos refrescantes e bebidas hidratantes. A dieta deve ser leve, como de resto nos pede o apetite geralmente reduzido; fruta, saladas, alimentos crus, texturas fluidas e sabores suaves contrabalançam o excesso de calor e de secura. Praticar actividades físicas é favorecido neste época, mas deve ser realizado longe do sol directo. Convém também ter em conta que a disposição mais extrovertida e aguerrida desta época pode conduzir a discussões – a maior parte dos divórcios ocorre logo após as férias de Verão – pelo que é importante manter a calma e a “cabeça fria”...

sexta-feira, 1 de junho de 2012

Lua Cheia, eclipse lunar e trânsito de Vénus: os céus na primeira semana de Junho


Gémeos, e as qualidades geminianas, estão em destaque nos céus durante a Lua Cheia e eclipse lunar de dia 4 de Junho. Vejamos: o Sol estará em Gémeos entre 20 de Maio e 20 de Junho; Vénus realiza o seu (longo) trânsito retrógrado neste signo até ao início de Agosto; Mercúrio estará aí até dia 7 de Junho; e Júpiter dirige-se para lá a passos largos (entra em Gémeos a 12 de Junho). Estamos presentemente mais motivados pela busca de conhecimento e informação, mais comunicativos e sociáveis. A nossa curiosidade divide-se por vários temas, como se todo o mundo à nossa volta se tornasse mais interessante. A variedade de opções disponíveis é agora particularmente apelativa, e queremos ver “um pouco de tudo”, em vez de seguir um só caminho com mais profundidade. Como uma criança, podemos facilmente distrair-nos de um assunto logo que outro desponta no horizonte. 

Com a presença de Vénus no signo, as relações com os outros (amantes ou amigos) podem estar sujeitas ao mesmo alargamento de possibilidades – e à mesma inconstância e relativa superficialidade. Todo o que é novidade nos atrai mais agora, e a possibilidade de “namoriscar” sem compromisso – particularmente com jogos de palavras – pode parecer irresistível. O lado forte de Gémeos é a curiosidade e a agilidade mental, mas o seu lado fraco é justamente a inconstância e a superficialidade. Mais uma vez, embora esta influência esteja presente temos a possibilidade de escolher a forma como a vivemos. Em todo o caso, o facto de Vénus estar retrógrado neste signo dá-nos uma margem de manobra para reflectir sobre as nossas inclinações antes de agir, o que pode ser muito útil agora.

A Lua Cheia de dia 4 de Junho vai brilhar em Sagitário, fazendo par com a Lua Nova em Gémeos (com eclipse solar) de 21 de Maio passado. Este tema Gémeos-Sagitário repete-se na relação presente entre o Sol em Gémeos e a Lua em Sagitário, dois signos relacionados com o intelecto e os sistemas de crenças. Estando Vénus em Gémeos e Marte em Sagitário, temos ainda de lidar com o relacionamento, que na mitologia era magnético mas na astrologia é geralmente considerado tenso, entre Vénus e Marte… Talvez tenhamos de rever as nossas crenças mais profundas, e encarar o facto de que não existe um caminho único para se chegar a lado nenhum. Tolerância e flexibilidade serão conceitos-chave.  

Todas estas influências dificultam a concentração profunda ou a meditação, porque os processos mentais estão particularmente acelerados. Durante esta Lua Cheia não valerá a pena agarrar-nos a pensamentos demasiado rígidos; a máxima de que tudo está em constante mudança estará na ordem do dia. Tudo é energia, desde os pensamentos até às relações humanas, desde a matéria mais densa até à matéria de que são feitos os nossos sonhos, e a energia está em constante mutação. Mais uma vez, estes dias pedem-nos fluidez e flexibilidade, capacidade de adaptação e poder de encaixe. Deixar ir o que já não serve os nossos verdadeiros propósitos, e seguir o novo caminho que se abre.

Se a passada Lua Nova anunciava o início de uma fase também nova na vida – ou mesmo de uma nova forma de vida, impulsionada pelo eclipse – esta Lua Cheia pode trazer a visão clara desta novidade, seja positiva ou negativa. Quando os velhos paradigmas deixam de nos servir, “mudar de pele” nem sempre é indolor. No geral, a série de eclipses e as actuais relações planetárias não prometem dias fáceis. Na verdade, tanto podemos ter diante de nós situações estimulantes e novos desafios, como descobertas dolorosas que teremos de enfrentar. Não esqueçamos que a Lua Cheia tudo revela.

Com todo este enfoque em Gémeos, e com as tensões e retardamentos que descobrimos nos céus (para além de Vénus, também Plutão e Saturno estão retrógrados), é também possível que sintamos na pele o lado mais sombrio do signo que rege a comunicação. Podem vir à tona sentimentos de solidão, incompreensão e isolamento, e há uma certa tendência para ouvirmos as palavras dos outros de forma distorcida, gerando mal-entendidos. 

Os planetas retrógrados pedem-nos, por sua vez, que examinemos o passado. Este passado pode referir-se a assuntos inacabados, ou às causas e consequências das atitudes que nos conduziram até ao momento presente. A revisão corajosa e honesta dos nossos pontos fracos é fundamental para a construção de um futuro mais sólido e que melhor represente a nossa verdade essencial.

Por fim, mas não menos importante, temos o famoso trânsito de Vénus diante do Sol, nos dias 5-6 de Junho. O planeta está prestes a passar entre a Terra e o Sol, no ponto mais próximo possível de ambos, ampliando a sua influência sobre todos nós. Esta proximidade faz com que possamos aproveitar melhor a sua influência. Vénus retrógrado sugere-nos um aprofundamento da verdadeira natureza e motivações dos nossos relacionamentos. Depois da conjunção com o Sol o planeta surge em toda a glória da sua versão diurna, deixando de nascer no horizonte ao pôr-do-sol e passando a brilhar como Estrela da Manhã. Este é o aspecto masculino e impulsivo da Deusa, menos propício à reflexão.

A mudança de “polaridade”de Vénus era considerada como um momento delicado em termos cósmicos, semelhante a um equinócio. Esta possibilidade é aumentada pela quadratura entre Vénus e Marte (o Amor e a Guerra), no próprio dia 5 de Junho (durante a conjunção Vénus-Sol), que pode trazer mais tensão aos relacionamentos. É aconselhável evitar discussões e críticas excessivas (atenção ao lado mais negativo de Gémeos), e tentar focar a consciência na comunicação amorosa.

Lua Cheia, eclipse lunar, conjunção Vénus-Sol e quadratura Vénus-Marte: já tinha dito que não serão dias fáceis? Mas todos poderemos sobreviver-lhes, ao contrário daquilo que afirma a famosa “profecia maia”. Mais um vez, com flexibilidade e tolerância.

terça-feira, 29 de maio de 2012

O Sangue da Lua (I)



Desde as épocas mais arcaicas, o mistério feminino da menstruação foi reverenciado e temido em praticamente todas as sociedades. A sua ligação com as fases da Lua, e o facto do ciclo médio feminino (28 dias) corresponder exactamente a uma lunação, não podia passar despercebida, e só serviu para aumentar o carácter sagrado desta relação íntima e exclusiva entre as mulheres e a Natureza. Do assombro causado pelo fenómeno nasceram inúmeros mitos e rituais, e a crença generalizada de que o próprio sangue menstrual daria origem à criança que crescia no útero. Entre os Maoris, em diversas tribos africanas, e até em relatos hindus, os bebés são formados de sangue menstrual coagulado, o que para Aristóteles e Plínio correspondia a uma verdade (pré) científica.

Diversos mitos do Médio Oriente relatam a criação da Humanidade a partir de terra misturada com sangue menstrual, e esta concepção encontra-se mesmo no nome de Adão, o primeiro homem, da palavra hebraica que significa “sangue” (dam). O feminino de Adão, ou adamah, significa por sua vez “terra” (chão), mas também “vermelho”. No Génesis, Adão é formado a partir de adamah, a terra vermelha ou ensanguentada à qual Deus insufla então o sopro da vida. Também no Corão se pode ler que Allah criou o homem a partir de alaqa, um coágulo de sangue. Tais histórias repetem-se por todo o globo, encontrando-se relatos semelhantes na América do Sul ou nos mais arcaicos mitos gregos e romanos.

Naturalmente, o poder vivificante do sangue menstrual fazia dele um "elixir da longevidade" e uma cura poderosa. Indícios destas crenças encontram-se em lendas que referem o sangue da Lua ou o vinho da deusa, ou o sangue da sabedoria da mitologia nórdica, bebido pelos deuses de forma equivalente ao Soma indiano, ao sangue de Ísis (Sa) egípcio, ao Amrita persa ou à Ambrósia da imortalidade do Olimpo grego. O banho revigorante no líquido que guarda a essência da vida também faz parte de inúmeras histórias, e a convicção de que a união sexual com uma mulher menstruada daria ao homem poderes extraordinários, ou até a vida eterna, encontra-se em diversos textos tântricos e taoistas.

Estas são as mais antigas versões de uma história que o tempo adulterou inteiramente. Com o desenvolvimento das sociedades patriarcais, tais crenças foram sendo disfarçadas ou substituídas por outras, nas quais a reverência pelo sangue uterino passa a temor, e finalmente a aversão. A palavra hebraica dam (sangue) viria a significar “mulher” noutras línguas indo-europeias (damsel, madam, dama, dame), e também “maldição” ou “amaldiçoado” (damned, danado, etc.). O latim damnare significa "condenar", e provém de damnum, "prejuízo, perda ou ferida”, o que neste contexto não podia ser mais explícito.

Aos poucos, as classes sacerdotais patriarcais foram revendo os mistérios das mulheres de acordo com os seus preconceitos próprios. Se estes preconceitos estavam em parte baseados na ignorância e no desejo de tomar o poder às sociedades tendencialmente matriarcais, eram também consequência do desenvolvimento do pensamento simbólico, este especificamente masculino, e de certa forma oposto à vivência do corpo que caracteriza o universo feminino. Talvez não seja descabido dizer que a sacralidade dos ciclos das mulheres, harmonizados com os ritmos cósmicos e naturais, e dos quais resulta toda a vida humana, se perdeu de vista quando os homens lhes tentaram sobrepor o pensamento abstracto e simbólico. O Feminino é literal, material e corpóreo, enquanto o Masculino é simbólico, sublimado e mental.

A partir daqui, surgem muitas das interdições à mulher que menstrua: o contacto com o seu sangue, o mesmo que antigamente dava a imortalidade, pode agora causar a morte, a doença, a cegueira, a perda de virilidade. Das leis brâmanes e mitos védicos ao Talmude, dos preceitos zoroastrianos à tradição rabínica, dos relatos de Plínio às superstições cristãs, o perigo que o sangue uterino representa é anunciado em todas as tradições. As mulheres que sangram são afastadas da comida, dos homens, da comunidade, dos templos. Nada, afirma São Jerónimo, é tão impuro como uma mulher menstruada.

O pensamento científico apenas desmistificou parte destas crenças. Até ao século XX, médicos e cientistas ainda se referiram à menstruação como uma patologia e à mulher menstruada como um ser débil. Todas aquelas que lêem este texto devem ainda recordar a interdição de fazer desporto, tomar banho, lavar o cabelo ou bater ovos, entre outras…

E onde todos estes mitos caíram por terra, surgiu outra ameaça aos mistérios femininos, talvez a mais insidiosa de todas: a sugestão de que estes não existem. Na sociedade actual, “moderna” mas ainda indubitavelmente patriarcal, cujo altar é o da Razão e da Ciência, o sangramento mensal não passa de um pequeno incómodo ultrapassável – e que um dia será definitivamente posto de parte pelos avanços da farmacêutica. A mulher moderna tem ao seu dispor tratamentos hormonais, analgésicos e barreiras discretas e eficazes que lhe permitem domesticar o ciclo menstrual, anular os seus incómodos, esquecer-se da sua existência. Pode viver uma vida igual à do homem.  

E no entanto, o mistério do derrame de sangue como sinal de amadurecimento chegou a impressionar tanto os seres humanos que condicionou até mesmo os ritos de passagem masculinos. Em diversas sociedades tradicionais, também aos rapazinhos no limiar da idade adulta era provocado sangramento, reproduzindo-se neles a misteriosa “ferida” arquetípica que abria as meninas à comunhão com os ritmos cósmicos. Hoje em dia só elas continuam a enfrentar este rito de passagem, já que apenas na mulher ele acontece naturalmente. É isto uma maldição, ou uma oportunidade extraordinária para todas nós?

Ainda que se tenha perdido o contexto sagrado da menstruação, a sua vivência física mantém-se. Menstruação, gravidez e parto, menopausa: o corpo da mulher é um verdadeiro “fio de Ariadne” para quem quiser aventurar-se pelo labirinto do Feminino e dos seus mistérios. Ao contrário da mente, o corpo não mente. E o corpo do mundo é feminino.

quinta-feira, 24 de maio de 2012

O Poder do Útero (II)



Então não existia o não-existente nem o existente: não existia o espaço do ar, nem o céu acima dele.
(…)
A escuridão existia: o Todo inicial revelado na escuridão era caos indiscriminado. Tudo aquilo que então existia era vazio e informe: pelo grande poder do Calor foi criado este Um.
Hino da Criação, Rig Veda (texto sagrado hindu)

A forma como a nossa sociedade tem visto os órgãos sexuais e reprodutivos da mulher reflecte a ignorância generalizada no Ocidente moderno sobre a noção de vazio. O vazio original é glorificado, em muitas tradições, como uma representação da Grande Mãe cósmica, o útero escuro de onde brota toda a manifestação, um espaço pleno de energia. Um dos mais famosos Sutras budistas, o MahaPrajnaparamita Hridaya (Sutra do Coração), afirma que a Vacuidade é o fundamento da existência de todas as coisas: a Forma é o Vazio, o Vazio é a Forma. Na tradição hindu, um dos significados de Sunyata, o Vazio, é a força vital latente criando interminavelmente a Realidade. E mesmo na Bíblia o vazio é o princípio de toda a criação - no princípio, quando Deus criou os céus e a terra, a terra era informe e vazia

Finalmente, no ano passado (2011) um grupo de físicos observou directamente, e pela primeira vez, partículas de luz nascendo e extinguindo-se no vácuo cósmico, dando realidade à possibilidade de “algo” provir do nada, já prevista pela mecânica quântica. O vazio está pleno de potencialidades.

No entanto, a noção de que o vazio equivale à falta de algo predomina na nossa sociedade essencialmente quantitativa e materialista, que teme, como Pascal, o “silêncio dos espaços infinitos” e vê na ausência aparente um sinónimo da própria morte.
 
E o útero feminino, esse vazio por excelência, bem como o espaço da vagina, são, para um psicólogo como Freud, símbolos de ausência. É em torno desta concepção que Freud desenvolve a sua teoria da inveja do pénis, levando mais tarde Lacan (que desmonta parte da hipótese freudiana) à provocante afirmação la Femme n'existe pas. Neste sentido, a Mulher não existe porque as mulheres são desprovidas de significante, ou símbolo que as represente globalmente, sendo que o único significante universalmente reconhecido para o género humano seria o falo masculino.

A sexualidade feminina ganha assim a sua aura negativa. Por um lado, a Mulher é a matriz da vida, sendo objecto físico de desejo na medida em as suas formas arredondadas reproduzem e evocam a forma da fonte de toda a vida (poder-se-ia dizer que o corpo feminino é uma revelação do seu mistério interior, a rotundidade uterina). Porém, ela é também temida, e é-o justamente na sua dimensão vazia, aquilo a que Lacan chama de privação: não faltando nada à mulher, já que possui a sua estrutura sexual própria (ao contrário do enunciado de Freud), ela está no entanto privada de algo – o falo, naturalmente. E privação, ausência, equivalem no dicionário da misoginia à própria morte. Desta maneira o berço torna-se sepultura, e a fonte da vida é temida como o negro abismo onde se perdem as almas. 

E portanto a Mulher de Lacan não existe, embora todas as mulheres existam… o que, de certa forma, poderia justificar o eterno drama masculino expresso na interrogação “o que querem afinal as mulheres?”. Mas a esta pergunta nem as próprias poderiam responder, porque sem significante nada pode ser dito da mulher (rien ne peut se dire de la femme, dizia ainda o psicanalista francês) – a Mulher é silêncio, e o Homem (ou o seu falo) é a palavra. O falo é a fala.

O que não é inteiramente desprovido de sentido. Na verdade, a Mulher e o seu útero são o silêncio no qual ecoa a Palavra cósmica ou divina, o logos ou Verbo. Na tradição cristã esta simbólica essencial está perfeitamente explícita: recebendo e aceitando o Verbo divino - faça-se em mim segundo a tua palavra - Maria gerou a incarnação desta mesma Palavra. Em Cristo, e segundo a expressão de São João, o Verbo fez-se homem e veio habitar connosco. Este é, de resto, o Verbo primordial (No princípio existia o Verbo; o Verbo estava em Deus; e o Verbo era Deus. (…) Por Ele é que tudo começou a existir; e sem Ele nada veio à existência) que criou o mundo a partir do Vazio original (Deus disse: «Faça-se a luz», e a luz foi feita).

Então, sem vazio, onde ecoaria o Verbo? Sem silêncio, onde soaria a Palavra? A resposta é evidente: sem vazio não existe som, não existe linguagem, não existe Verbo criador. Se o Masculino fornece o impulso inicial e a orientação à manifestação, o Feminino fornece-lhe a forma e a substância. Ao contrário do que pressupõe a análise freudiana, o vazio dos órgãos femininos não é meramente o “negativo” do órgão masculino. Sendo agora a nossa vez de provocar, porque não dizer mesmo que o “nada” feminino é o molde do “algo” masculino?

O escultor recorre a um molde oco, onde é vazado o metal de que é feita a escultura. O oco, o vazio, é a matriz da criação; e assim será igualmente com o vazio uterino. O útero é como o poço cantado nos versos de um dos mais antigos escritos chineses, o Tao Te Ching, que compara a sua forma vazia ao próprio Tao (o Absoluto):

O Tao é como um poço:
Usado mas nunca esgotado.
É como o vazio eterno:
Cheio de infinitas possibilidades.

Está escondido mas sempre presente.
Não sei quem o deu à luz.
É mais antigo que Deus.