terça-feira, 9 de abril de 2013

Carneiro: o fogo juvenil que acende a Primavera


Com o encerrar dos ciclos lunar (a última Lua Nova em Peixes, último signo do Zodíaco) e solar (Sol em Peixes) encerrou-se também um ciclo astrológico, enquanto outro começa em Carneiro. Como vimos antes, e como é evidente, os planetas que no mês passado se agruparam em Peixes vão passando de seguida para Carneiro. Até meados de Abril hão-de chegar a juntar-se nesse signo uns 5 planetas (Urano, que já lá está desde 2011, Marte, Vénus, Sol e Mercúrio), e ainda a Lua Nova de 10 de Abril, também em Carneiro. Portanto, esta é a energia que se segue, e virá justamente com a primavera, o tempo de tudo o que é novo e cheio de energia vital. É a altura ideal para plantar as sementes de novos projectos, de agir, de seguir impulsos e realizar sonhos. 

O sol está em Carneiro até 19 de Abril. As qualidades de Carneiro, agora potenciadas pelo sol, são o entusiasmo, a espontaneidade, a impulsividade, a capacidade de iniciativa e o pioneirismo. Os aspectos mais complexos desta influência têm a ver, claro, com os impulsos descontrolados, a impaciência, a incapacidade de recuar e ver “the big picture”, a incapacidade de fazer e seguir planos ordenados, a falta de sensibilidade para os detalhes e para com os outros, o excessivo “cortar a direito”, etc. Carneiro, como primeiro signo do Zodíaco, e anunciador de novos começos, tem uma natureza tendencialmente infantil: as suas motivações são simples, a sua forma de agir é directa e imediata, os seus desejos são imperativos, a sua capacidade de antever e planear o futuro, bem como a sua paciência, são diminutas, a sua vitalidade e potencial de crescimento é grande, a sua disposição é consideravelmente ingénua e franca, e a sua consciência não conhece a culpa ou o remorso. 

Vénus está em Carneiro até 15 de Abril, e portanto todas as actividades “venusianas” são coloridas pela natureza deste signo. Vénus rege todos os relacionamentos com o mundo exterior aos quais atribuímos um valor palpável, seja físico ou material. Isto significa, para além das relações humanas, a nossa relação com o dinheiro e os valores materiais, a nossa relação com a aparência das coisas (aquilo que desejamos pelo aspecto estético) e a nossa relação com tudo o que nos traz prazer. Em Carneiro, todos estes aspectos são vividos de forma directa e espontânea. O prazer, o amor, a beleza e os bens materiais são procurados com particular impetuosidade. Durante algum tempo, o nosso lema de vida pode tender para algo como “aproveita o momento”, “a vida é curta”, “é agora ou nunca”. Se tivermos em conta a natureza directa, relativamente auto-centrada e impulsiva de Carneiro, ser-nos-á mais fácil recuar um pouco quando for necessário. No que respeita às relações inter-pessoais, devemos ter em atenção a sensibilidade dos outros; no que respeita aos prazeres materiais, podemos tentar prevenir excessos (comer ou beber demais, por exemplo); no que respeita ao enamoramento rápido pelo que consideramos “belo”, ter em conta que a maior parte da beleza do mundo é efémera; e no que respeita à conquista de dinheiro ou bens materiais, meditar sobre a ilusão que representam… de resto, é aproveitar a energia ígnea do signo, que anuncia o despertar da natureza e da vitalidade no nosso corpo e na nossa psique. 

Marte está em Carneiro até 20 de Abril, e Marte é precisamente o regente deste signo. Portanto, Carneiro não só é iluminado pelo sol até esta data, como está reforçado pela presença do seu regente! Mais uma vez, todas as características de Carneiro estão potenciadas, e até duplamente potenciadas. Porém, Marte tem essencialmente uma natureza bélica e competitiva, que reforça sobretudo este aspecto de Carneiro. As palavras-chave desta conjuntura são, para além das já referidas: acção, conquista, triunfo, confiança, coragem, atrevimento, ousadia, competitividade, rapidez, impaciência, arrogância, e até possivelmente egoísmo. 

Ainda por cima Urano está também em Carneiro desde 2011 (e aqui ficará até 2019), tornando-nos pouco pacientes para com todo o tipo de restrições. Embora esta conjuntura afecte sobretudo a sociedade como um todo, a tendência geral é para nos livrarmos de tudo o que nos tolhe, prende e limita, inclusivamente as nossas próprias limitações mentais e emocionais. O “problema” aqui reside na ligação entre o excesso de fogosidade, a impetuosidade infantil e o carácter irreflectido de Carneiro, e a natureza errática e imprevisível de Urano, que pode agir com a rapidez e a força brutal de um relâmpago. Basicamente, é como chegar fogo ao rastilho de uma bomba, e das grandes. Corremos o risco de uma grande e caótica explosão, sem alvo definido, daquelas que fazem muitos danos colaterais. Não resta muita paciência para negociações, nem frieza para avaliar uma dada situação, nem qualquer capacidade de ouvir o outro ou de contemporizar; não há inocentes nem tempo a perder. Este Urano pode virar o nosso mundo do avesso, literalmente. 

A partir de dia 13, Mercúrio sai de Peixes e entra… claro, em Carneiro. É bom que nos habituemos à energia de Carneiro, porque está a ser reforçada por todos os lados. A comunicação pisciana, gentil e intuitiva, dá lugar às ideias originais e inovadoras típicas de Carneiro, sempre apresentadas com muita assertividade. Tendemos a falar com os outros de forma directa, sem rodeios, sem cuidados e sem muitos detalhes. Tomamos decisões rápidas, por vezes até irreflectidas. É fácil ter discussões, desde proveitosas trocas de ideias até disputas violentas. Nesta situação ninguém gosta de perder, e a capacidade de argumentação está no seu máximo. Por outro lado, é uma altura propícia a ter “iluminações” repentinas, e muita criatividade. 

Por fim, a Lua Cheia de dia 25, em Escorpião, traz um eclipse solar em conjunção com Saturno e em oposição a Marte e ao Sol (já em Touro), cuja energia pode durar cerca de 6 meses. Como existe tensão entre a energia de Escorpião, onde está a lua, e a de Touro, onde estão o sol (Escorpião e Touro são signos opostos), este eclipse pode representar a libertação de tensões, criando desconforto e até dor, mas também oferecendo a possibilidade de um novo começo. Uma Lua Cheia representa sempre uma época de culminação, e a promessa (ou o potencial) de realização de quanto foi começado na Lua Nova. Mas a Lua Cheia em Escorpião é uma lua emotiva, relacionada com sensações profundas e com o mergulho nas águas do inconsciente. Escorpião não aprecia, nem conhece, a superficialidade. Uma vez que a Lua Cheia, por si própria, já facilita um clima emocional, por vezes mesmo inconstante, é natural que se sucedam as alterações de humor nos dias que antecedem o pleno lunar. Na pior das hipóteses, virão à tona as emoções que tendemos a recalcar, e seremos forçados a lidar com os nossos temores e fragilidades, particularmente no plano das relações íntimas, onde podem surgir questões ligadas com carências afectivas (ciúmes, solidão, sentimentos de abandono ou falta de amor, etc.). Mas também é possível que se manifestem medos relacionados com carências materiais. 

A Lua Cheia traz à superfície e exibe diante da consciência tudo o que estava oculto. Logo, uma das razões do nosso mal-estar poderá ser o facto de estarmos a lidar com ideias, fantasias e especialmente emoções inconscientes ou reprimidas, que lutam para serem reconhecidas e libertadas. A única forma de nos libertarmos dos nossos medos é enfrentá-los, e aqui voltamos a Escorpião, que também lida com os processos interiores de cura, quer físicos quer psicológicos. Conjugada com o apelo prático do Sol em Touro, a Lua pode ajudar-nos a encontrar e expressar a nossa intimidade de forma genuína e com auto-confiança, e a deitar fora tudo o que já não nos serve, em todos os aspectos da vida, mas particularmente na nossa psique. É uma boa altura para fazer um auto-exame, da mesma forma que pomos as contas em dia. Aliás, a Lua Cheia em Escorpião favorece a contabilidade e o tratamento dos impostos, agora que é altura de apresentar o IRS. 

Vénus e Marte, Sandro Botticelli,1480
Mais um factor a ter em conta: esta Lua Nova em Carneiro estará em conjunção com Vénus e Marte, os impulsos contraditórios (mas conjugáveis, como nos diz o relato mitológico dos amores entre ambos) do Amor e da Guerra. A questão é que Marte está em casa, como já vimos, mas Vénus sente-se aí como uma “convidada” pouco à vontade. A relação entre ambos ressente-se de uma certa apatia de Vénus, que em Carneiro não se sente totalmente segura para corresponder aos avanços de Marte. Esta atmosfera reflecte a possível falta de sensibilidade masculina/juvenil de Carneiro, quando avança com demasiada impulsividade e falta de subtileza diante do “outro”, aqui representado pelo aspecto feminino/venusiano. Fica evidente a necessidade de prestar atenção a conjunturas deste género na nossa vida: podemos aproveitar estes dias em torno da Lua Cheia para tentar identificar em todos os encontros que temos, quer com outras pessoas quer com situações que nos vão surgindo, este possível excesso de energia fogosa, por um lado, e a energia que se lhe opõe, por outro. Talvez consigamos perceber que ao avançamos de forma mais impetuosa a reacção do “outro” é o retraimento, e também que, quanto mais longe da nossa “zona de conforto” estamos, mais nos retraímos. 

Noutro contexto, uma sugestão prática para estes dias está relacionada com a entrada da primavera, que possivelmente sentiremos com mais força a partir da Lua Nova de dia 10, marcada por toda a ênfase posta em Carneiro e na sua energia solar e pioneira. É a altura ideal para as famosas “limpezas da primavera”, quer dentro quer fora de nós. É tempo de arrumar, limpar, libertar os espaços de tudo quanto guardamos em excesso, e fertilizar tanto a terra como o nosso corpo e a nossa criatividade. Este processo de limpeza é reforçado pela Lua Nova de dia 25, que, como já referimos, também ajuda a pôr as contas em ordem!

segunda-feira, 11 de março de 2013

Sete luzes sobre as águas de Peixes






Há muito que estamos como o Coelho Branco da Alice no País das Maravilhas, sem tempo para nada. Quem segue o blogue já reparou, e só podemos pedir desculpas. Continuamos sem tempo hoje também, mas com muita vontade de assinalar este dia muito especial (11 de Março), que anuncia a Primavera próxima.

Um stellium é um conjunto de planetas (três ou mais) que se agrupam num signo ou casa por um determinado período, amplificando a energia desse signo ou casa enquanto lá se encontram. O signo de Peixes tem sido, no último mês, o anfitrião deste encontro, e a casa está praticamente com lotação esgotada. Primeiro recebeu Marte, Chiron e Neptuno, depois chegou Mercúrio, mais tarde Vénus e o próprio Sol, e hoje a festa fica completa com a chegada da Lua. Até amanhã, quando a Lua terminar a sua (sempre) breve visita, estes sete planetas fazem da modesta habitação de Peixes a mais brilhante, ruidosa e animada do Zodíaco.

Contra-relógio, não nos é possível fazer uma análise mais profunda deste encontro cuja magia fica bem simbolizada pelo número sete, mas tentaremos realçar alguns pontos fundamentais. Sabemos quais são, genericamente, as características de Peixes: sensibilidade, vulnerabilidade física, psíquica e emocional, empatia, tolerância, ausência de limites rígidos entre “eu” e o “outro” (seja este outra pessoa, ou qualquer agente exterior), compaixão, adaptabilidade, imaginação, visão de conjunto, capacidade de entrega, serviço, amor universal, mergulho nas profundezas do inconsciente, capacidade de transformação e regeneração, misticismo e fé.

Também não é difícil compreender como estas qualidades se podem transformar em obstáculos, caso sejam vividas de forma desequilibrada. Hiper-sensibilidade e demasiada vulnerabilidade levam alguns peixes ao caminho da eterna vitimização, inutilizando a mais-valia que representariam caso fossem bem utilizados e dirigidos. Excessiva tolerância e ausência de limites conduzem a um caos do qual dificilmente sai qualquer criação, porque a criação exige alguma capacidade de dirigir a energia, dando-lhe uma forma definida. A compaixão sem objectividade faz Peixes perder-se num mar de emoções, fazendo-o sofrer em vão e impedindo-o de ajudar ao outro de forma eficaz. A lista podia continuar: excessiva dependência emocional, escapismo e alienação em relação ao mundo e às suas regras, falta de sentido prático, falta de clareza mental, auto-indulgência, crendice e irracionalidade.

Estes são, portanto, os temas destacados pelas sete luminárias que hoje abrilhantam a casa de Peixes. Estamos mais sensíveis a influências exteriores, mais sonhadores, mais empáticos e tolerantes, mais disponíveis, mais abertos ao inconsciente e mais espirituais, mas talvez também excessivamente vulneráveis, menos organizados, menos práticos e menos capazes de definir limites. Assim conhecemos as águas que navegamos.

Vejamos o papel da Lua, sétimo e fundamental elemento deste stellium. Como Lua Nova, ela rege os projectos em potência, aqueles que florescerão com a Lua Cheia (e a próxima é a Lua Cheia da Primavera, tempo perfeito para fazer brotar novidades). Peixes, o sonhador do Zodíaco, encontra aqui um momento muito propício para criar na sua imaginação aquilo que Carneiro, a partir de dia 20, ajudará a concretizar, auxiliado pela energia primaveril. Para já, podemos contar com a energia de Marte, um dos ilustres participantes nesta conjugação planetária, para vitalizar as sementes que hoje lançamos à terra.

Esta Lua Nova em Peixes propõe-nos também viver de acordo com novas leis, que nem sempre são concordantes com as leis da sociedade. Neste período, muitos de nós estão certamente a ser confrontados com a necessidade de respeitar regras pessoais e seguir por novos caminhos, que estejam mais de acordo com a sua verdade interior. Apesar do impulso recebido por parte de Marte, Peixes não tem por hábito a revolta armada, por isso é mais provável que este processo assuma a forma de uma resistência passiva às imposições exteriores, e de uma subtil mudança de orientação na forma de viver e de nos relacionarmos com o mundo e os outros.

De seguida, é-nos proposto o tema da cura. Este é um bom período para iniciar qualquer processo de cura ou desintoxicação, desde uma dieta até uma terapia psicológica. Mas é sobretudo útil no que respeita à cura interior, à profunda renovação do Ser, ao mergulho nas profundezas do inconsciente para resgatar a criança ferida que se encontra em todos nós. Chíron está aí para ajudar neste processo terapêutico, e a forma pisciana de o empreender é através da rendição e da confiança. No seu nível mais elevado, Peixes sabe que o Universo o sustentará quando se deixar cair no escuro oceano da psique – e a Lua Nova estará lá para o acompanhar.

Limpos, poderemos então servir. O Serviço, na sua acepção mais elevada, é a derradeira proposta de Peixes, e parte da compreensão de que tudo é Um, não existindo fronteiras reais entre nós e os restantes seres. Em Peixes, o último signo do Zodíaco, o Homem completa o seu percurso de aprendizagem, e pode tornar-se um guia, um consolador e um curador para o seu próximo. É-lhe, porém, exigido que não tente sobrepor a sua vontade à vontade cósmica, tomando as rédeas da situação e impondo o seu desejo de prestar auxílio; neste ponto é necessária a maior das humildades, que implica aceitar que nem sempre é possível resolver uma situação ou ajudar o outro.

Por fim, este é o tempo de nos desapegarmos de tudo aquilo que já não nos serve, desde as nossas próprias crenças – por vezes, mesmo aquelas sobre as quais erguemos a nossa vida – até às pessoas ou situações que não mais pertencem ao nosso presente. Aqui estão incluídos muitos objectos materiais inúteis que acumulamos em casa, o peso que acumulamos no corpo, a dor que acumulamos no coração ou os medos que acumulamos na psique. Deixemo-los partir com a água de Peixes, sob a influência purificadora da Lua Nova, mesmo que nos pareça demasiado difícil. Mais difícil será viver a arrastar tais pesos.

Resta dizer que não vale a pena pensar que nos podemos esconder da Verdade, quando sete luzes brilham sobre a nossa cabeça. Se queremos viver de acordo com os ritmos cósmicos, este é o momento de a reconhecer e aceitar a Verdade. E a Verdade |nos| libertará.

terça-feira, 5 de fevereiro de 2013

A vida é uma roda


Eu tinha um texto começado em Outubro que era assim: 

"Depois de um título com tanta categoria até bloqueei. A vida também pode ser um Carro, um Sol, uma Estrela, um Julgamento, uma prisão, um prado, um ciclo de oitenta anos a fazer bolinhos de canela com raspa de limão, um ciclo de oitenta anos a olhar para o horizonte, um ciclo de oitenta anos a colocar botox preventivo na testa desde os quarenta, que é o destino que eu tenho pedido a Nosso Senhor e que me disponho a trocar pelo actual; com as continhas para pagar, o carrinho utilitário, as viagens que faço de esfregona na mão para reduzir as despesas da minha guesthouse, que por acaso também é a minha casa. Mas este não é um texto neo-realista, é um texto de tarot, sobre a carta Roda da Fortuna. 

Não percebo grande coisa desta carta, mas resolvi escrever sobre ela porque o seu número, 10, remete para o mês de Outubro (eu disse que comecei a escrever isto em Outubro). E porque o seu significado incontestável é mudança e eu associo o Outono a mudanças: as folhas caem das árvores, as andorinhas vão-se embora para África, cheira a castanhas assadas ao pé da estação quando eu ainda estou a apanhar o comboio para a praia (um dia gostava de falar acerca disto com o Presidente da Câmara, ou com quem decide o dia em que acabam os gelados e começam as castanhas)". 

Curiosamente, e muito a propósito, eu também associo o início do ano a mudanças, desde há cerca de dez minutos e depois de reflectir sobre o assunto. Isto porque se bebe champanhe e se escreve listas de objectivos. Há até quem as enterre na terra, para que os objectivos floresçam como as flores, e há quem as enterre no vaso da vizinha, à falta de melhor. Neste momento muita gente sabe que em 2013 eu pretendo ser criativa, ir à praia e ter gémeos, mas como a lista não estava assinada, também não sofro muito com isso. Além de que o vaso não era da minha vizinha, mas da vizinha da Patrícia, a que rosna quando uma pessoa se engana na campainha. 

"Está então esclarecido que eu não sou uma grande especialista na carta, mas se deixo passar mais uns dias perco a oportunidade de escrever um texto cheio de pertinência – e custa-me que pensem que este contributo pessoal para uma aprendizagem do tarot não tem lógica nenhuma (ahahah). No entanto, a verdadeira razão porque escolhi escrever sobre esta carta prende-se com o facto dela surgir tantas vezes nas minhas leituras. Neste momento, supera largamente a outra, a do miúdo a fazer yoga."

Mas não é a vida assim mesmo? Precisamos de parar para prosseguir. Precisamos de nos preparar para a caminhada. Eu, pessoalmente, não sei decidir o que é mais importante. Acho que é tudo. Aliás, quando eu digo parar não quero dizer que as pessoas fiquem estanques e coladas ao chão. Há tanto que se faz enquanto não se faz nada. Eu fartei-me de crescer. Sendo a minha vida de um desinteresse absoluto, termino com a seguinte conclusão: ao sair a Roda da Fortuna preparem-se para grandes e boas mudanças. Esta carta costuma anunciar o novo. Fosse eu uma taróloga vulgar e era bem capaz de dizer que não há mal que sempre dure.

quinta-feira, 20 de dezembro de 2012

21 de Dezembro de 2012 - O Fim do Mundo e o Solstício de Inverno


 I 
O “Fim do Mundo” 

Tanto enquanto Humanidade como enquanto indivíduos, todos tememos periodicamente um fim do mundo, sob qualquer uma das suas formas. A aproximação do ano Mil lançou a Europa no temor colectivo do aniquilamento, inspirando inúmeros actos de contrição e muitas conversões súbitas e inflamadas. Antes e depois deste ano memorável, foram incontáveis as datas apontadas para o fim do mundo, baseadas na redondez dos números – milénios e ciclos de 500 anos são os preferidos –, nas efemérides de eventos extraordinários, nas previsões de vários auto-denominados profetas, ou em episódios tão curiosos como o da galinha inglesa que punha ovos com mensagens apocalípticas.

As sociedades ocidentais, progressivamente secularizadas e imbuídas do espírito racionalista, foram deixando de acreditar nestas previsões, mas não as conseguiram dispensar por completo: apesar de tudo, o mito e a magia ainda nos habitam. Sabemos e sentimos, em todos os níveis do nosso Ser, que a vida é feita de ciclos, desde a fugaz duração de algumas células do corpo ou da vida de uma borboleta, até aos grandes ciclos cósmicos que hão-de determinar, ainda que num futuro longínquo, o total arrefecimento e extinção do universo. Entre o pouco que sabemos, sabemos isto: tudo aquilo que tem um começo terá um fim.

Entretanto, o fim do mundo não aconteceu no ano Mil, nem no milénio seguinte, nem acontecerá agora, quando viramos a última “página” do já famoso calendário Maia, como não acontecerá nunca apenas porque um calendário chegou ao fim. Para minorar algumas decepções, e para manter a chama do encantamento acesa, deixamo-nos então embalar pelo conceito de “fim de uma era” e pela possibilidade renovada do despertar de um “novo mundo” nas nossas consciências, num movimento confirmado pela suposta subida de vibração da Terra (conceito que faz muito pouco sentido, e é de resto inverificável), por um misterioso alinhamento planetário (que não existe, sendo que os alinhamentos parciais são frequentes), e por muitos outros “dados científicos” bastante criativos mas muito pouco realistas.

A verdade é que vivemos num mundo continuamente nascido, morto e recriado, onde o futuro se faz passado a cada instante e só o presente é real, como se o real fosse da espessura de uma sombra suspensa no vazio e tivesse a duração de uma fagulha. Cada momento é uma oportunidade para nos recriarmos também a nós, ampliando a nossa consciência e mudando o (nosso) universo. A astrologia ensina-nos que há ocasiões mais propícias a este movimento do que outras, e também que algumas conjunturas nos afectam enquanto indivíduos, enquanto outros afectam toda a Humanidade e até o sistema solar que habitamos. A fé mostra-nos que o socorro dos Céus está sempre ao nosso alcance. A simples observação da natureza torna evidente a harmonia e o profundo sentido da Criação. Neste cosmos ordenado e harmónico, pulsando em ciclos regulares e regido por leis que desconhecemos na sua maior parte, mas cuja perfeição conseguimos por vezes adivinhar, está tudo aquilo de que necessitamos para crescer em consciência e fazer com que o brilho dessa consciência ilumine tudo o que nos rodeia. Em vez de esperar por um dia especial ou por uma conjunção celeste peculiar, melhor seria se aproveitássemos em cada segundo o infinito poder e a excepcional graça do momento presente.

II 
O Solstício de Inverno 

No mesmo dia em que alguns esperam um cataclismo universal, outros uma “ascenção vibracional” da Humanidade, e a maior parte espera apenas o momento certo para se rir um pouco, celebra-se mais um solstício de Inverno. Este ano, o momento solsticial ocorre precisamente a 21 de Dezembro, quando os nossos calendários marcam a entrada da nova estação. Às 11.11h, e durante alguns segundos, o Sol parecerá imobilizar-se nos céus antes de continuar o seu movimento; este será o dia mais curto do ano, e a partir daqui os dias serão cada vez mais longos, até ao solstício de Verão.

A energia invernal é yin, fria, escura, maternal, passiva, vagarosa e dirigida para o interior, e está bem evidente nos dias curtos, húmidos e frescos. O Inverno é também sinónimo de uma natureza mais introspectiva e prudente, e simboliza a idade avançada, quando os ritmos biológicos e as ambições mundanas se moderam. É uma época adequada ao repouso, à calma, à leitura, à vida doméstica e contemplativa. Estaremos a funcionar de acordo com a energia da estação se reduzirmos o nosso ritmo de vida e as horas de trabalho e nos dedicarmos ao lar, à família e aos amigos íntimos, mantendo as casas aquecidas e confortáveis, comendo alimentos mais quentes e nutritivos e indo para a cama mais cedo. O solstício de Inverno deve ser celebrado como um momento de serenidade, interioridade, aceitação, desapego e atenção aos outros.

Porém, o excesso de frio causa inércia, apatia e falta de clareza mental, sendo necessário manter o organismo e os ritmos da vida em equilíbrio. Devemos conjugar a tendência para acordar mais tarde e deitar mais cedo, acompanhando as reduzidas horas de luz, com uma maior actividade durante as horas mais quentes do meio do dia. Para contrabalançar o frio e a humidade na natureza e nos nossos corpos devemos atiçar algum fogo, seja aquecendo as casas, comendo alimentos quentes e bem cozinhados ou vestindo mais roupa. A prática de actividades físicas energéticas é menos eficaz nesta época, enquanto a meditação, a contemplação e o estudo são favorecidos.

Por fim, lembremo-nos que a luz desponta no momento mais escuro da noite, e que a morte invernal não é senão uma suspensão aparente e temporária da vida. É este o verdadeiro significado do Natal, de que falaremos noutro texto, e é esta a promessa anunciada pelo solstício de Inverno. Que esta luz ilumine o nosso desejo legítimo de ver renovado, em cada manhã, o mundo que habitamos. Afinal, amanhã, em vez de ter terminado, o mundo estará um pouco mais iluminado, e em breve despontarão as primeiras folhas da Primavera nas árvores agora despidas.

quarta-feira, 14 de novembro de 2012

Eclipse solar em Escorpião



Para ser grande, sê inteiro: nada
          Teu exagera ou exclui.

Sê todo em cada coisa. Põe quanto és
          No mínimo que fazes.

Assim em cada lago a lua toda
          Brilha, porque alta vive.

Ricardo Reis 

A Austrália, e através dela todo o mundo, viveu nas primeiras horas de hoje, dia 14 de Novembro, um eclipse solar total. O eclipse solar potencia sempre uma tendência para uma viragem interior, obscurecendo a luz diurna, que revela as aparências mas esconde as essências, e fortalecendo a penumbra nocturna, que permite a viagem inversa. Não é verdade que a luz do sol revela o mundo, mas vela o céu, enquanto a noite cobre o mundo mas descobre as estrelas? Cada eclipse solar dá-nos justamente a oportunidade de ver, em pleno dia – ou seja, quando a nossa consciência está desperta – o que está habitualmente oculto.

E se um eclipse solar já é, em si próprio, um portal entre o consciente e o inconsciente, imagine-se o poder que terá quando este portal se abre no signo de Escorpião, aquele que habita as águas profundas do inconsciente, regido pelo próprio Plutão, senhor dos mundos subterrâneos e dos poderosos processos ocultos da vida e da morte.

Plutão é muitas vezes temido pela sua associação com a morte e a destruição, mesmo quando sabemos que rege igualmente os processos de regeneração. Naturalmente, todo o ser vivo teme, acima de tudo, a aniquilação; mas aquilo que os homens temem em Plutão é pelo menos tão assustador, se não mais, do que a morte física: é a morte do Ego. Nenhuma terapia ou livro de auto-ajuda nos pode preparar para a realidade desta forma de aniquilação daquilo a que estamos habituados a reconhecer como a nossa identidade, a nossa persona, a soma de tudo o que somos. A promessa de um eventual renascimento não é suficiente para acalmar o pavor atávico da perda de si próprio, da cedência de controlo, da queda livre no desconhecido. Como o reflexo instintivo e involuntário que leva o recém-nascido a tentar agarrar-se a algo logo que pressente a possibilidade de uma queda desamparada, assim reagimos nós diante da proposta de Plutão.

Mas o caminho que Plutão indica é na verdade o único que conduz ao nosso íntimo, ao mais profundo de nós mesmos. Se o pudéssemos recusar, nunca encontraríamos o âmago do nosso ser, o lugar onde nasce e se enraíza a nossa essência humana, e o ponto de contacto com a nossa essência divina. Porém, embora não possamos recusar os processos plutonianos à medida que estes surgem nas distintas áreas da nossa vida, podemos sempre escolher vivê-los sem consciência e sem colaboração – o que, sendo compreensível do ponto de vista humano, é, a todos os níveis, uma pena.

O eclipse solar em Escorpião é, portanto, uma luz que se fecha para o mundo e se abre para dentro, convidando a uma viagem interior iluminada pelo sol da consciência, que não costuma brilhar nessas frias paragens. O único conselho ajuizado será, pois, o de aproveitarmos esta oportunidade para tentar mergulhar nos domínios profundos do inconsciente à procura dos grandes temas escorpiónicos da vida psíquica, da sexualidade e das reservas de energia vital, considerados na sua dimensão oculta, irracional, e tantas vezes recalcada – a nossa sombra.

Esta “sombra”, como a sombra fugidia de Peter Pan, deve ser conquistada e reclamada pela consciência, se queremos ser inteiros. Nela estão armazenadas as nossas reservas energéticas mais profundas, esse negro petróleo gerado a partir das experiências mais antigas que fossilizaram na nossa psique sob a acção transmutadora das “infernais” pressões plutónicas. Tal como na analogia alquímica, que procura o ouro luminoso a partir da purificação da poderosa matéria negra arrancada ao centro da terra, trata-se de trazer à luz da consciência o nosso repositório de emoções reprimidas, medos, pulsões primitivas, desejos recalcados e negações. Iluminadas, as trevas deixam de existir, e revelam-se na sua derradeira verdade: como nada. A consciência expandida passa a ocupar todo o espaço dentro de nós, abrangendo agora a plenitude do Ser integral.  

Este processo de integração e completude, esta vitória sobre a dualidade, só podem ser entendidas como o limite, mais virtual do que real, de um processo cujo fim está fora do tempo. No entanto, podemos vivenciar “pequenos” processos de integração do Ser à medida que lidamos com as influências de Plutão e nos aventuramos corajosamente nos seus reinos sombrios, com o auxílio dos clarões de luz que o Universo, como uma graça, acende diante de nós – como este eclipse tão bem testemunha. 

Morre antes da tua morte, diziam os sábios sufis. De cada pequena morte, de cada rendição, de cada mergulho no mar profundo do inconsciente resultará um ser renovado. Assim é no domínio plutónico da sexualidade, onde é bem conhecida a metáfora da “pequena morte”, que simboliza a entrega total, única via para a transmutação do sexo “normal” em acto divino, fusão cósmica, ultrapassagem da dualidade física. Assim é no domínio plutónico dos reservatórios de poder, como os recursos materiais, onde só a total confiança permite conhecer a abundância dos lírios do campo, que não trabalham nem fiam, e porém nem Salomão, em toda a sua magnificência, se vestiu como qualquer deles (Mt. 6:2).

Este é, pois, o momento certo para nos abrirmos à intuição, para darmos voz à nossa voz interior. Para retirarmos, pelo menos por algum tempo, o nosso foco do mundo e o voltarmos para dentro. Para desligar a televisão, fechar o jornal e meditar um pouco. Para fazer silêncio. Para deixar falar o corpo e, através dele, o inconsciente. Para deixar fluir a vibrante energia da sexualidade, que é fonte de vida sob todas as suas formas. Para alargar um pouco mais os limites do nosso ser, aceitando um pouco mais da nossa natureza sexual e dos desejos que habitualmente recalcamos. Para acreditar na abundância, energética e material, que o Universo oferece àqueles que não se auto-limitam. Para nos predispormos ao encontro connosco mesmos, e ao resgate da nossa totalidade.

terça-feira, 16 de outubro de 2012

Lua nova em Balança - mais uma oportunidade


Há cerca de 10 dias atrás, a 5 de outubro, Saturno deixou o signo de Balança, e o foco das suas lições de vida passou para os temas regidos por Escorpião. Durante dois anos tivemos oportunidade de trabalhar a energia de Balança sob um ponto de vista implacavelmente realista, e cada um terá feito as suas aprendizagens pessoais no domínio dos relacionamentos e das parcerias, com resultados que se vão revelando ao longo do tempo.

Mas agora, e durante os próximos 28 dias, podemos revisitar estes temas, acompanhando a Lua nova que desperta na casa de Balança. Se as lições dos dois últimos anos foram aprendidas (ainda que mais ou menos inconscientemente), teremos uma boa oportunidade para “começar de novo”. Já sabemos que a Lua nova e os dias imediatos – o primeiro instante, ou parto, de um ciclo lunar – são o momento perfeito para lançar novas sementes à terra; qualquer iniciativa tem nestes dias um potencial de sucesso acrescido, seja ela voltada para o início de um projecto absolutamente novo, ou para a renovação e regeneração de algo enfraquecido, viciado ou desvirtuado. A energia de uma Lua nova pode ser canalizada para uma verdadeira transformação da nossa consciência e da nossa vida.

Em Balança, esta Lua inaugura um ciclo dedicado aos relacionamentos que mantemos, e sobretudo (mas não só) aos relacionamentos amorosos. Dá-nos mais uma hipótese de olhar, com olhos limpos, para este par formado por “eu o e outro”. Uma das qualidades de Balança é a capacidade de negociação e de harmonização dos opostos, que podemos ajudar a trazer conscientemente para as nossas relações.

Ao mesmo tempo, Vénus – regente de Balança – está em Virgem, a Donzela arquetípica, aquela que não conhece senhor e é dona de si própria. Mas a peça representada pela Lua em Balança e Vénus em Virgem é, mais do que uma história no feminino, uma narrativa da alma humana. Em cada um de nós, homem ou mulher, desperta agora esta tranquila independência da alma (Vénus em Virgem) que nos permite saber quem somos, aceitá-lo, e relacionarmo-nos com os demais a partir daí. Se Balança nos ensina a ceder um pouco para ir ao encontro do outro, esta posição de Vénus ensina-nos a não ceder tudo, permitindo-nos ver com clareza onde é que nos situamos perante nós, os outros e a vida. Balança mostra-nos até que ponto o outro é o nosso espelho (e aqui vale o diz-me com quem andas, dir-te-ei quem és); Vénus em Virgem mostra-nos que, enquanto estivermos sujeitos às leis deste mundo, o outro é uma realidade separada e autónoma. As duas aprendizagens são verdadeiras, cada uma ao seu modo, e fundamentais para nos sabermos relacionar. Entre uma e outra energia, podemos aproveitar estes dias para nos reconhecermos como parceiros de direito próprio diante do outro, e vice-versa.

Este é também o tempo certo para corrigir desequilíbrios, incluindo os desequilíbrios dentro de nós mesmos (por exemplo, entre as nossas atitudes conscientes e as nossas pulsões inconscientes), ou aqueles tão exteriores como o desequilíbrio cósmico entre o masculino e o feminino. Nos relacionamentos, trata-se de equilibrar as nossas necessidades com a do parceiro, criando uniões mais harmoniosas e verdadeiras, mas também (e sobretudo) mais amorosas.

Uma possibilidade trazida por esta Lua é a do encontro, em nós mesmos, da polaridade oposta – o arquétipo masculino para uma mulher, o feminino para um homem – exigindo reconhecimento e integração. Tal encontro, geralmente despoletado por alguém ou por um acontecimento exterior, pode atiçar um enamoramento ou uma paixão. A paixão, que de certa maneira se opõe à forma mais elevada da energia amorosa de Vénus/Balança, conduz-nos, encadeados e ébrios, para dentro de nós mesmos, em direcção às projecções inconscientes do Ego: a pessoa que nos desperta o coração nada mais é que um catalisador do encantamento que sentimos diante do nosso próprio reflexo, adivinhado num ser exterior. Esta é uma versão bem conhecida do “casamento alquímico”, também simbolizado pela Lua nova, ou conjunção entre a Lua e o Sol.

Porém, trata-se aqui sobretudo de um movimento de unificação interior, que não deve ser confundido com uma relação amorosa livre e consciente. O amor, ao contrário da paixão, mostra-nos o outro em todo o esplendor da sua verdade, da sua unicidade e da sua infinita complexidade. A Lua nova em Balança vem também activar a capacidade de ver o outro por dentro, de o reconhecer na sua essência, de o encontrar em todos os sentidos, e esta é a oportunidade que não devemos realmente perder.

sexta-feira, 12 de outubro de 2012

Saturno em Balança: nem sempre podemos ter aquilo que queremos




You can't always get what you want
But if you try sometimes
You just might find you get what you need!
 (The Rolling Stones)

Saturno esteve em Balança até ao passado dia 5 de outubro, quando entrou em Escorpião. Balança é o sétimo signo do zodíaco, e inaugura a segunda metade deste, que num mapa todo alinhado (com Carneiro na casa 1, e por aí adiante) corresponde aos seis signos situados acima da linha do horizonte. Os primeiros signos do zodíaco (Carneiro, Touro, Gémeos, Caranguejo, Leão e Virgem) estão essencialmente relacionados com o desenvolvimento e a afirmação da persona ou do ego, e os últimos seis caracterizam-se por uma progressiva abertura ao outro, ao mundo e aos valores universais. A transição para Balança simboliza portanto um determinado grau de amadurecimento do Eu, que deixa as fases juvenis (Carneiro, Touro e Gémeos) e da primeira idade adulta (Caranguejo, Leão e Virgem)

Em Balança estamos no início da viragem para fora, colocando a ênfase nos relacionamentos interpessoais e na necessidade de estabelecer parcerias de qualquer tipo – das quais a relação de casal, única que pode funcionar a todos os níveis do ser, representa o modelo mais completo. Balança tem a ver com o tema da partilha energética entre duas polaridades, e o seu objectivo é o equilíbrio e a harmonização das duas energias presentes. A fórmula para alcançar este equilíbrio é a equidade, ou a capacidade de fazer escolhas justas não apenas para um, como sucedia sob o domínio do ego, mas para os dois lados de cada questão.

Quanto a Saturno, este pode ser visto como um professor severo, exigente e disciplinador, mas justo. Saturno domina a rebeldia e castiga a inconstância e a preguiça, enquanto recompensa o trabalho sério, a persistência e a responsabilidade pessoal. Oferece nas suas aulas um ambiente estruturado (que para muitos será considerado limitativo), regras rígidas e uma autoridade inquestionável. As suas lições são longas e difíceis, mas quem resistir pode contar com um prémio – e nada é tão gratificante como um prémio concedido por Saturno. Conhecem a sensação de receber um elogio ou uma boa nota do professor mais austero e rigoroso da escola?

Com Saturno em Balança, o nosso rigoroso professor veio desafiar-nos a prestar uma séria atenção aos relacionamentos e parcerias, essa delicada dança (que é por vezes luta) entre o Eu e o Outro. E Saturno não faz concessões: aquilo que pede aos seus alunos é um exame implacável dos seus relacionamentos, do equilíbrio entre dar e receber, daquilo que pedem e daquilo que podem (e querem) dar, da solidez das relações que mantêm, e até daquilo que uma relação realmente significa para cada um. Durante este período, que teve início entre Outubro de 2009 e Julho de 2010 e termina agora, os alunos mais atentos terão certamente revisto muitas noções pessoais acerca de parcerias, e talvez tenham tido revelações inesperadas. Com “boa nota”, passaram aqueles que tiveram a coragem de encarar os desequilíbrios nas suas relações, o que é verdade e o que é ilusório, e a sua própria capacidade de se relacionar (dar e receber).

Saturno em Balança não permite, por exemplo, a manutenção de ilusões românticas. Só aqueles que permaneceram firmemente de olhos e ouvidos fechados à lição saturnina – o que não acontece apenas por teimosia ou falta de coragem, mas por inúmeras razões pessoais – poderão ter conservado na sua plenitude uma visão ingénua e irrealista dos relacionamentos amorosos. Para todos os que foram pessoalmente tocados pelo trânsito, os insights podem ter chegado de diversas formas. Uns terão compreendido que a relação que mantinham não é adequada ao seu desenvolvimento pessoal; outros terão aceite o oposto, ou seja, terão tomado a decisão de se comprometer num relacionamento; outros ainda terão enfrentado a necessidade de se libertarem de expectativas, ideais, preconceitos ou medos. 

Saturno pede-nos para viver no mundo real. Em Balança, ele mostra-nos que um amor e uma cabana não são tudo, que nenhuma união é perfeita, que é difícil existirem separações sem dor, que as nossas escolhas podem fazer vítimas e danos colaterais, que nem sempre é possível identificar culpados e inocentes, que não é assim tão fácil encontrar “outra pessoa”, que o amante dos nossos sonhos provavelmente deveria ficar apenas nos nossos sonhos, que romper um relacionamento pode significar ter de aceitar a solidão, que não é assim tão mau estar sozinho, que podemos não estar preparados para amar e ser amados, que nada é mais valioso numa relação (como na vida em geral) que a verdade, e nada mais destrutivo que a mentira e a ilusão, que só podemos mudar a nós mesmos, e que não podemos exigir nada de ninguém, muito menos que nos faça felizes. 

Mas mostra-nos também que é possível ser genuinamente feliz aceitando a imperfeição, que os nossos defeitos nos afastam mais da felicidade que os defeitos do outro, que o mundo oferece as maiores surpresas a quem se abre às suas infinitas possibilidades, que a coragem dá frutos, que o tempo – regido por Saturno – tudo muda, tudo cura e tudo ensina, que nada se constrói sem estrutura, paciência e perseverança (e aquilo que cresce num instante cai num instante), e que seremos amados quando soubermos e quisermos amar.

Na verdade, Saturno sente-se bem em Balança, signo onde se encontra exaltado. Talvez a ternura e o encanto pessoal do signo aqueçam o coração deste mestre duro e taciturno, ou a sua constante procura da verdade encontre eco no amor de Balança pela equidade, justiça e imparcialidade; o facto é que a combinação de ambos está facilitada. A permanência de Saturno em Escorpião, que começou agora e terminará apenas em dezembro de 2014, será sem dúvida mais dura – especialmente para aqueles que não estudaram bem a lição anterior. Se em Balança a energia de Saturno explorava o tema dos relacionamentos do ponto de vista da consciência comum, em Escorpião ele vai mergulhar nas profundezas do inconsciente e analisar questões bem mais complexas, como a nossa necessidade de controlo do outro, as lutas de poder, a manipulação, o ciúme, o medo, a traição, os comportamentos obsessivos, as pulsões inconscientes, a capacidade de entrega incondicional, a vivência da sexualidade e a dissolução das barreiras físicas e psicológicas, o significado da verdadeira intimidade. Onde Balança encorajava a negociação, Escorpião exige uma vontade focada e, por vezes, implacável e irredutível. Como podem ver, este curso já não é para meninos do primeiro ano…

quarta-feira, 19 de setembro de 2012

Estes tempos que vivemos - o confronto celeste entre Urano e Plutão





Aquele foi o melhor dos tempos, foi o pior dos tempos, foi a idade da sabedoria, foi a idade da insensatez, foi a época da crença, foi a época da incredulidade, foi a estação da luz, foi a estação das trevas, foi a primavera da esperança, foi o inverno do desespero, tínhamos tudo diante de nós, nada tínhamos diante de nós, íamos todos para o Paraíso, íamos todos no sentido contrário (…).
 “Um conto de duas cidades”, Charles Dickens


Apesar de tudo, este não é um texto sobre política. Mas o mínimo que se pode dizer é que vivemos tempos conturbados. São inúmeras as razões que contribuíram para tal, e, se a nossa situação presente se encontra reflectida nos astros, estes não são os culpados. Podem, no entanto, ajudar-nos a compreender melhor o pano de fundo, as potencialidades e a duração provável das crises globais que agitam o mundo.

Plutão está em Capricórnio desde 2008, e estará aí até 2023. Esta conjuntura forma o contexto “ideal” para os desenvolvimentos a que diariamente assistimos, e tem sido amplamente discutida pelos astrólogos. Mas neste instante ocorre outro fenómeno astrológico ao mesmo tempo fascinante e tremendo: uma quadratura exacta entre este Plutão em Capricórnio, e Urano, que está em Carneiro (com total precisão, o encontro dá-se a 20 de setembro).

Urano é o planeta que rege os movimentos de abertura à novidade, de quebra de hábitos, de mudança de valores e paradigmas, e a liberdade e independência. Plutão é "o grande transformador”, uma força profunda e poderosa, que uma vez activa nada pode deter; mas também simboliza o poder, nomeadamente o poder instituído, ou aqueles que têm poder sobre nós. 
 
Carneiro e Capricórnio são dois signos cardinais e de elementos considerados incompatíveis (terra e fogo). Carneiro tem a ver com começos, avanços, liderança, motivação, urgência, impaciência, e até agressividade. Capricórnio é do elemento terra - sólido, estruturado e sóbrio. 

Carneiro gosta de começar projectos, e Capricórnio está mais à vontade com a sua conclusão: não aprecia mudanças, apoia o poder e a ordem instituída, e trabalha de forma teimosa e persistente, às vezes subterrânea, para lentamente alcançar as suas metas. 
 
Se já é desconfortável a presença de Plutão, o destruidor, em Capricórnio, abalando as estruturas conhecidas e alterando planos (algo que Capricórnio não aprecia nada), imagine-se quando há um encontro pouco simpático (quadratura) entre este Urano desejoso de novidades, auxiliado pela energia pioneira e fogosa de Carneiro, e um Plutão poderosamente inquieto, aprisionado nas estruturas e nos planos relativamente rígidos de Capricórnio, que por sua vez se sente ameaçado com a energia em ebulição do planeta da morte e da renovação. 

Caso estivéssemos diante de uma conjunção dos dois planetas (um encontro harmónico), poderíamos esperar colaboração entre os ímpetos revolucionários de um e a capacidade de arrasar estruturas do outro. As mudanças na sociedade seriam imparáveis, semelhantes ao rio que transborda do leito e quebra todos os diques. Mas uma quadratura, que aliás já tivemos em Junho, e que voltaremos a enfrentar uma a duas vezes por ano nos próximos 3 anos, é diferente. Antes de mais, é um indicativo da forma como devemos ver os tempos que vivemos. Este é um encontro tenso, onde duas forças que poderiam colaborar com o mesmo propósito se confrontam numa luta de titãs. As mudanças serão inevitáveis, mas em vez de irromperem de uma vez, avançando como a onda de um tsunami, são contidas até ao limite explosivo. O combate entre as duas poderosas energias que neste momento se recusam a colaborar atrasa o processo, causando tensões e pressões quase insuportáveis e criando um enorme desafio à humanidade. 

Estas circunstâncias afectam sobretudo o mundo, globalmente, e os seus efeitos medem-se em gerações, visto que se trata de planetas lentos e impessoais. Mas quase todos, no fundo, sentimos os seus efeitos. Sabemos que é necessária uma mudança, tanto pessoal (individual) como colectiva. Urano dá-nos a consciência da necessidade de nos libertarmos dos velhos paradigmas, de condições opressivas, de limites demasiado restritos para o ser humano, e Carneiro empurra-nos para a acção, para as manifestações públicas, para uma inquietação que conduz, por vezes, à acção agressiva. Mas por outro lado o medo capricorniano da desestruturação obriga-nos (a nós e a quem nos governa), quase sempre inconscientemente, a tentar manter o status quo, apesar de todas as velhas instituições e formas de acção estarem já plutonicamente minadas por dentro e condenadas à destruição. Afinal, o lado negativo de Capricórnio representa as grandes sociedades económicas internacionais, os governos autoritários e os sistemas de pensamento totalitários, rígidos e esclerosados.

De forma geral, podemos talvez considerar que nesta fase da História o conjunto dos cidadãos é representado por Urano, e que Plutão é o campeão dos sistemas instituídos – governos, instituições financeiras, etc. 

Em tais circunstâncias, é escusado esperar colaboração entre ambos. A tensão e o extremar das posições não verão alívio, mas antes serão levados ao limite, até que todo o sistema colapse, para ser então substituído por formas novas. 

Porém, nem tudo é cinzento. Uma vez que Urano, ao entrar em Carneiro, começou um ciclo novo (Carneiro é o primeiro signo do zodíaco), e cada ciclo uraniano dura cerca de 84 anos, podemos esperar que a sua mensagem saia vitoriosa, embora tal só aconteça depois de um parto longo e difícil. Por outro lado, Plutão não é apenas o senhor da morte e da destruição, mas igualmente do renascimento e da regeneração. Uma vez passados os tempos difíceis, ser-nos-á dada a hipótese de habitar um mundo novo.

Não vale a pena perder tempo a lamentar a forma árdua e penosa na qual o futuro nos chega. Estas são as circunstâncias mais adequadas à situação que criámos no passado, e temos de as viver até à sua culminação. Vale a pena, isso sim, compreender o esquema geral para nele colaborarmos, em vez de contribuirmos para tornar tudo ainda mais difícil. É chegado o tempo de nos unirmos contra o verdadeiro “inimigo”, que é o medo da mudança, a estreiteza de mentalidades e o apego ao passado. Cada um terá de enfrentar estes desafios dentro de si, nas suas circunstâncias de vida particulares – todas tão distintas – e todos teremos de os enfrentar no exterior, onde ocupamos o mesmo barco. É fundamental aproveitar estes tempos para rever a forma como estamos presentes no mundo, como nos relacionamos com a nossa comunidade, com a sociedade e com a Humanidade como um todo, que tipo de participação queremos ter na construção do futuro, e qual o nosso grau de responsabilidade pessoal e social.

quarta-feira, 1 de agosto de 2012

O tempo dos frutos maduros



Para tudo há um momento e um tempo para cada coisa que  se deseja debaixo do céu (Ecl. 3:1).

No hemisfério norte fazemos habitualmente um período de férias em pleno verão, em torno do mês de Agosto. Procuramos aproveitar assim os dias longos e o calor, propícios à vida ao ar livre, ao usufruto da natureza, ao lazer, à sociabilidade e à exteriorização. Porém, partimos de um pressuposto incorrecto quando associamos o tempo quente ao repouso e ao dolce far niente, guardando todas a iniciativas para o outono. É verdade que a isso somos quase forçados pelos calendários oficiais; mas a realidade que a natureza revela é outra.

A energia do verão é da natureza do fogo, como bem sabemos. As cores do verão são quentes, tal como o ar; a pele arde debaixo do sol, os incêndios lavram sem misericórdia, e todos procuram sombras e humidade. A sua força conduz ao crescimento máximo de todos os jovens rebentos e crias da primavera, que devem estar fortes e desenvolvidos para suportar os rigores do próximo inverno. Na natureza, tudo atinge a sua plenitude no verão – as árvores oferecem os seus frutos naturalmente amadurecidos, a terra dá espigas pejadas de grão. Este é o tempo da revelação, da sensualidade à flor da pele, da alegria e do riso. 

A energia vibrante do verão está relacionada com a maturação, ou com a maturidade do Ser. O fruto tímido da primavera precisava da árvore para crescer, mas está agora plenamente desenvolvido. Já não precisa da seiva que o alimentava, e se não for colhido cairá por si próprio, de forma a espalhar as sementes e continuar o seu ciclo. O verão corresponde ao ser humano adulto e completo, capaz de pensar por si, de cuidar de si e de criar e manter uma família. 

Embora seja fácil compreender que todos os tipos de energia são necessários e devem estar em equilíbrio, há épocas em que uma destas formas deve naturalmente dominar. No início da vida somos governados pela energia primaveril, que rege o nascimento, a infância e a juventude de todos os seres. Depois, precisamos deste tipo de energia estival, quente e voltada para o exterior para sermos seres independentes e auto-suficientes. Mais tarde devemos entregar-nos à energia do outono, que nos exorta a deixar partir tudo o que já não pertence nas nossas vidas, aligeirando as cargas supérfluas tal como as árvores deixam cair as folhas. Perdemos o ardor com o qual competíamos no mundo, na profissão ou no amor. Vemos os filhos sair de casa, trocamo-la por uma casa mais pequena, deixamos para trás muitas ilusões e desejos vãos. Por fim, é tempo de aceitar a energia do inverno, que pede silêncio, lentidão e interioridade. Se soubermos viver com as estações, este é o tempo de reflexão, da meditação e do encontro com o Ser, finalmente despojado de todos os acessórios inúteis.

Portanto, a energia do verão deve ser mais forte durante o “verão” das nossas vidas, quando nos afirmamos na profissão, fundamos um lar e criamos a nossa própria família, e nos definimos diante da comunidade. Esta será sempre uma etapa mais penosa para aqueles em quem o “fogo” vital é fraco (embora o seu excesso traga iguais dificuldades). A vivência consciente do verão pode ser um bom auxílio para quem se sinta carente desta energia fogosa, afirmativa e extrovertida, sem a qual não podemos revelar-nos ao mundo, atingir a plenitude do nosso ser social, oferecer os nossos dons à comunidade, criar e dar substância aos sonhos e encontrar um “lugar ao sol”.

Que o sol que brilha no céu seja a nossa inspiração para estes dias. Que a sua luz nos guie todas as manhãs, e o seu calor nos embale todas as noites. Que a sua energia nos conduza para fora de nós próprios, em direcção as outros. Que possamos colher maduros os frutos que semeámos, desfrutando deles entre aqueles que amamos. Que todos os nossos sentidos despertem e a alegria jorre para a nossa vida.

segunda-feira, 16 de julho de 2012

Lua Nova em Caranguejo



Este mês a Lua Nova ocorrerá no dia 19 e no grau 27 do signo de Caranguejo/Câncer, onde o sol está até dia 21.

A lua é o regente do signo de Caranguejo, encontrando-se aí na sua própria casa, onde se pode expressar sem constrangimentos e revelar a sua natureza fundamental. A natureza lunar é fortemente emocional, tendencialmente dependente, apegada, afectuosa, criativa, sensível (até ao excesso), centrada no lar, filhos, família e passado, e carente de intimidade e segurança material e emocional. No signo de Caranguejo aprendemos o significado do serviço ao próximo no seu aspecto feminino, o de cuidar, nutrir e confortar. Aqui se faz de uma casa um lar e de um grupo de pessoas uma família. Sob a influência da lua, tudo o que está em potência – seja um bebé, uma planta em rebento, ou um projecto profissional – é sustentado e gentilmente conduzido à realização.

O elemento da lua (e do signo de Caranguejo) é a água. Tal como os outros elementos, a água tem características muito específicas, todas essencialmente femininas e duais. A sua fluidez evoca uma forma suave, graciosa e intuitiva de viver, mas capaz de se tornar caótica e violenta em certas circunstâncias; o seu poder, tal como o das deusas irmãs Kali (a destruidora) e Ganga (a dadora de vida) da mitologia hindu, é tão criativo como aniquilador. A delicadeza de uma gota deslizando pode escavar uma rocha ou corroer o metal, provando o poder aparentemente paradoxal da constância (aquilo que se mantém) e do tempo (aquilo que muda), e a força intrínseca de tudo o que é aparentemente fraco. É portanto um símbolo universal da mutabilidade e da transformação, estando isto também ligado à sua capacidade de limpar o que está sujo através do método da dissolução, a segunda operação principal da alquimia. Ao nível da psique, a água representa o inconsciente, a estrutura feminina e não-racional da mente onde as emoções são purificadas dos seus elementos inferiores. Também o jogo entre superfície e profundidade do oceano evoca a relação entre o consciente e o inconsciente, atingindo-se este último através do mergulho na fria escuridão das suas águas, cujo conhecimento equivale ao domínio de um imenso potencial de energia. Este potencial desconhecido é associado com tudo o que é oculto, profundo, escuro e misterioso, como a magia ou o sonho.

Carta do baralho de tarot Symbolon, por Ingrid Zinnel, Peter Orban e Thea WellerA combinação do sol e da lua em Caranguejo conduz-nos ao mergulho nas águas profundas do inconsciente, onde residem a intuição, o sonho, a memória e a criatividade. Por sua vez, a fase da Lua Nova ou Negra permite trazer ao consciente o conteúdo oculto do inconsciente, de forma a resolver a divisão da psique humana. Durante uma Lua Nova o sol ilumina a face escondida da lua, que representa as sombras ou os aspectos recalcados do nosso ser integral. Assim, embora qualquer lua em Caranguejo vá activar o arquétipo da mãe amorosa e protectora, a fase Negra revela sobretudo as áreas da vida onde este arquétipo está ausente, ou onde é necessário reforçar a sua acção.

Uma Lua Nova em Caranguejo desperta a necessidade de nos sentirmos “em casa” em todas as áreas da vida, e de nos sentirmos apoiados e seguros. Se estivermos desterrados, sós ou vulneráveis em qualquer aspecto, esses sentimentos (que podem ser muito antigos) virão à superfície, obrigando-nos a procurar o nosso lugar no mundo – o que muitas vezes se traduz na necessidade de confirmar o espaço que realmente ocupamos na vida daqueles que nos rodeiam. A impossibilidade de o fazer, ou o não-reconhecimento desta urgência, pode despertar no nosso corpo e psique sintomas de desconforto bem reais.

Por outro lado, nestes dias encontramos com mais facilidade a nossa natureza maternal e amorosa, e somos mais capazes de zelar por tudo aquilo que está em estado nascente na nossa vida. Isto funciona igualmente num sentido global: na fase de influência da Lua Nova em Caranguejo sentimos de forma premente a necessidade de cuidar e proteger quem depende de nós e o planeta no qual vivemos.

No que respeita ao cenário cósmico que enquadra esta Lua Nova, é importante saber que o astro faz uma quadratura (aspecto algo tenso, relacionado com bloqueios e obstáculos) com o planeta Saturno, o regente da ordem, das estruturas, das fronteiras ou limites, da disciplina e do método, das restrições e da demora/paciência. Saturno está em Balança, onde se encontra exaltado, o que significa que as suas qualidades naturais estão amplificadas. Quando a necessidade canceriana de se “sentir em casa”, de pertencer a um grupo e de ser recebido e acarinhado se encontra com a necessidade saturnina de definir limites e estruturar situações, podem surgir questões ligadas com a busca de segurança emocional junto dos outros, ou de alguém particularmente significante na nossa vida. Embora isto possa traduzir-se numa tendência para a consolidação e estruturação de relacionamentos, o aspecto tenso do encontro torna mais provável a confrontação com os obstáculos que nos mantêm afastados do ideal canceriano da segurança emocional. Uma vez que a lua e o signo de Caranguejo também governam a infância, a família e a memória (inclusivamente a memória genética), podermos descobrir que as dúvidas em relação ao lugar que ocupamos no mundo e no coração dos outros e à satisfação das nossas mais profundas necessidades emocionais resultam já de traumas antigos. Se for este o caso, esta é uma boa altura para tentar compreender melhor como as questões não resolvidas do passado nos afectam no presente.

Esta é também a altura adequada para expressar necessidades emocionais, embora convenha fazê-lo tendo em conta que Marte, o senhor dos conflitos, também está em Balança, tal como Saturno, e faz uma quadratura com o explosivo Plutão. Veremos testada a nossa capacidade de negociar relacionamentos pessoais e necessidades afectivas de forma assertiva, mas sem agressividade nem lutas de poder. Balança exige que sejamos justos na forma como lidamos com os outros, e favorece relações de equilíbrio, sem vencedores nem vencidos. A sua tranquila imparcialidade vem amenizar a emotividade da lua em Caranguejo, desde que não nos deixemos levar pela combatividade de Marte e pela impetuosidade de Plutão. Saturno em Balança reforça por sua vez a exigência de maturidade nos relacionamentos, confrontando-nos com a importância de sermos parceiros de confiança nas parcerias que estabelecemos.

Nesta Lua Nova, devemos estar atentos aos seguintes temas: as nossas necessidades emocionais, a forma como nos sentimos integrados e recebidos pelos nossos pares, o sentimento de pertença a um grupo, aquilo que nos faz sentir “em casa”, o relacionamento com os nossos pais e os nossos filhos, o relacionamento entre a nossa “criança interior” e a nossa “mãe interior”, a relação com a casa, a terra onde vivemos, as nossas propriedades materiais e o próprio planeta, os temas da insegurança emocional e material/financeira, a relação com a família, a capacidade de zelar pelo nosso bem-estar e pelo bem-estar dos que nos rodeiam, a expressão criativa, a capacidade de gerar e desenvolver projectos novos, o equilíbrio entre dar e receber, a importância de ser justo e razoável nas parcerias, e a capacidade de gerir harmoniosamente os conflitos pessoais.

Os riscos que corremos estão relacionados com os traços negativos de Caranguejo e da lua, particularmente a instabilidade emocional, o sentimentalismo, a hiper-sensibilidade, a irracionalidade, o ciúme desregrado e a auto-indulgência (incluindo o abuso de substâncias que promovem a fuga à realidade). É ainda necessário ter em conta as influências de Marte e Plutão, que podem transformar a assertividade em agressividade, particularmente nas áreas onde encontramos as limitações impostas por Saturno à nossa necessidade de segurança.

Como sempre, os dias seguintes à Lua Negra devem ser dedicados aos novos começos. É a altura perfeita para iniciar projectos e tomar decisões que promovam a transformação da nossa consciência e da nossa vida. É o momento de deitar novas sementes à terra, de renovar e regenerar aquilo que está enfraquecido, de nos livrarmos de um vício ou mau hábito, de mudarmos algo em nós ou no quotidiano, de fazer planos para o futuro.

terça-feira, 10 de julho de 2012

Do amor de si ao Amor universal



Segundo o Antigo Testamento, Moisés recebeu as duas Tábuas da Lei com os Dez Mandamentos de Deus no sopé do Monte Sinai. O décimo primeiro mandamento foi dado por Cristo, e é enunciado desta forma: Amarás ao teu próximo como a ti mesmo. E esta é provavelmente a frase curta que menos pessoas conseguem ler até ao fim.

Amar ao próximo soa nobre, generoso, digno de louvor. Amá-lo como a nós mesmos significa desejar para ele o que queremos para nós, e também isto parece correcto e louvável. Mas é verdadeiramente disto que fala Cristo, e com ele todos os grandes mestres da humanidade? Podemos realmente ver o significado mais profundo desta frase simples e lapidar – que o amor ao outro parte do amor por nós próprios, e que sem este o movimento do coração em direcção ao “próximo” é impossível?

Falar no amor de si resulta sempre em duas formas de (in) compreensão: ou nos referimos ao “amor-próprio”, na acepção positiva que lhe dá a psicologia moderna, ou nos referimos a uma atitude egocêntrica e patológica. O amor-próprio é a auto-estima dos psicólogos, que diversas abordagens psicoterapêuticas pretendem reforçar. Este trabalho feito ao nível da psique, ainda que possa ajudar grandemente alguns pacientes, é na realidade um reforço das estruturas do ego, como se pode ver facilmente através do jargão utilizado: auto-expressão, auto-afirmação, auto-realização, e até “egoísmo positivo”. Fora deste contexto psicoterapêutico, prevalece a noção de que amar-se a si próprio antes de tudo é uma atitude basicamente egocêntrica, ou no mínimo com uma validade espiritual muito inferior ao caminho do amor ao próximo.

Mas o caminho é um só, e amar-se a si próprio antes de tudo não é o mesmo que amar-se a si próprio acima de tudo. O caminho principia com o amor de si (oposto do egocentrismo e da vaidade) e culmina no amor dos outros (Arnaud Desjardins). E a explicação para isto é muito simples. O amor verdadeiro é uma dádiva integral; não é um empréstimo, não é retomável, não cobra juros e não se dá pela metade. Amar não é para todos. Só pode amar quem tiver amor disponível e em abundância, para dar sem ter de pedir de volta e sem precisar de nada em troca. Só os ricos em amor podem amar. Os restantes – quase todos nós – são indigentes do amor, pobres mendigos que morreriam se dessem a sua única, preciosa migalha ao próximo. Somos buracos negros do amor, que sugamos a toda a volta. A nossa taça nunca está cheia, e portanto nunca transborda.

O amor de si é o primeiro acto de amor verdadeiro possível a um ser humano. “Amamos” os outros porque precisamos deles desesperadamente – filhos, pais, amigos ou amantes. Mas eles também não possuem amor para dar; quando muito poderão emprestá-lo, geralmente a juros, para tomá-lo de volta um dia. A única solução, que alguns têm a ventura de encontrar após muitas mágoas, é voltarmo-nos para o único ser que, de uma forma ou de outra, nunca nos abandonará: nós mesmos. A fonte do amor e da compaixão não está em nenhum lugar exterior.

Ama-te a ti mesmo para amares os outros (Thich Nhat Hanh). Amarmo-nos, com um amor verdadeiro, não é uma forma de egoísmo. Amarmo-nos é assumirmos a responsabilidade de encher a nossa própria taça, tanto que ela transborde, tanto que possamos enfim dar. Se o nosso corpo precisa de um pão para sobreviver, morremos se o dermos. Só o podemos dar se tivermos dois. Ainda que existam momentos nos quais se justifica que nos sacrifiquemos pelos outros, no dia-a-dia a nossa maior responsabilidade é para connosco; não por egoísmo, mas por dever, primeiro, e por amor, mais tarde. Porque cada um de nós é ao mesmo tempo o cuidado e o cuidador. Cada um de nós é o ser pelo qual somos plenamente responsáveis. E não somos plenamente responsáveis por mais ninguém – nem mesmo pelo filho recém-nascido que embalamos nas madrugadas. Também este é senhor do seu destino individual.

Ama o teu próximo como a ti mesmo. A dolorosa falta de amor do mundo não tem outra raiz senão a imensa falta de amor por nós mesmos. O sofrimento que nos causa a incapacidade de amar, muito mais profundo do que a carência de ser amado, só tem remédio no movimento que nos conduz em direcção a nós mesmos, e na total aceitação de quem somos. Este movimento interno que urge fazer, longe de ser egoísta, é a nossa única salvação. Quem se pergunta, às vezes de forma tão angustiada, como fazer para amar o seu próximo, tem aqui a sua primeira resposta. Amarás o teu filho quando tiveres embalado no teu coração a criança que foste; amarás a tua mulher quando tiveres honrado o homem que és; amarás o próximo quando te amares a ti mesmo.

É da condição humana que o amor por si desponte, tantas vezes, do sofrimento. Quem nunca se testou não se conhece, e quem não se conhece não se pode amar. Na verdade, o primeiro passo para o amor de si é em direcção ao conhecimento de si. Possa eu conhecer-Te, possa eu conhecer-me (Santo Agostinho). Ora, conhecer é estar de olhos abertos diante da verdade. É enfrentar as ilusões, as fantasias, os preconceitos, os “maus” sentimentos, o desamor, as sombras que existem em todos os seres humanos, e reconhecê-las por aquilo que são – uma parte de nós. Este é o caminho da honestidade, o único que abre as portas ao amor de si, e que nos levará a compreender o que significa amar o próximo como a nós mesmos: que nós e o próximo somos um.